quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Delírio consciente

o mar é calmo, longo e azul
remo insistentemente
o sol aflige os olhos
o sal corrói a pele
penso o já escrito
"navegar é preciso
viver não é preciso".

não avisto embarcações
cais, faróis, marinheiros
minha estrela guia
está além das nuvens

o mar é calmo,
o coração é louco
frenético, preguiçoso.

será ainda o mesmo dia
ou já será o amanhã?
não recordo escuridões
o clarão sufoca a visão.

nenhum cais novamente
o mar é calmo
as ondas firmes
os peixes raros,

é preciso navegar
navegar insistentemente.

a brisa ou a fúria me atacam o rosto,
não há destino para um coração louco.

seguro o leme, o bato na água com força
já não me encontro no mar.





domingo, 14 de abril de 2013

Talvez a solução para toda mulher triste fosse retocar a maquiagem.
Deixar os cílios marcados, a pele lisa, a boca incandescente.
Fazer a beleza do rosto iluminar o globo do olho e o canto da alma.
Brilhar mais que a dor.
Toda mulher triste, porém, deve evitar o uso do lápis de olho.
Este, involuntariamente, induz a tragédia, a lágrima sorrateira que borra a maquiagem.
Depois de pronta, com o cabelo arrumado, pode se usar um coque ou optar pelo charme do cabelo solto.
É preciso admirar-se na frente do espelho, até que de repente, numa fração de segundos inesperados, se esboce um sorriso tímido e envergonhado.
Mantenha-se olhando no espelho até que esse sorriso torne-se natural.
Sem se dar conta, estará linda e irradiante. Não haverá mais espaço para dor.
Só haverá deslumbre e encantamento, nenhuma dor resiste a uma mulher bonita.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Princípio Básico

Aquilo jamais aconteceria de novo. Tinha certeza que agora, tendo jurado internamente e repetido em silêncio a mesma frase mais do que os números poderiam contar, sua força seria outra. Jamais angústia, jamais dor, jamais sentir a escória da humanidade pegando carona no banco da frente de sua alma.
Estava decidida, tinha em si o âmago de qualquer conquista. Nenhuma palavra, nenhuma imagem, nenhuma lembrança derrubaria aquilo que chamará de "princípio básico para vida". Um nome extenso para algo simples e pequeno, que ladeava seus olhos e permitia que se sentisse, e que de fato fosse, outra.
Amanhã quando acordasse e dispusesse os pés da cama, não pensaria, naturalmente o primeiro a tocar o solo sagrado de seu lar seria o direito. Não que acreditasse em sorte, mas lhe era mais conveniente que todos os astros, deuses e santos estivessem a seu favor, numa conspiração cósmica para que seu objetivo fosse uma terna realidade. 



quinta-feira, 7 de abril de 2011

Tive paixões tão brutas
Que lavei a alma em sangue alheio.
Vezenquando me pego pensando
Ainda devo chorar vermelho.

sábado, 21 de agosto de 2010

Este
sentimento
louco
é pouco
ou
é oco.
A vida é mais completa do que parece.
A vida também é como parece.
A vida às vezes é uma prece.

COM OS OLHOS BEM ABERTOS

Algo dentro de si revirava-se, uma náusea lhe tira as forças, subia pela garganta, deixava os olhos vermelhos, a mente inquieta, talvez fosse o estômago. Uma comida estragada, uma recusa do organismo, o calor excessivo dos últimos dias.
O suor brotava da testa, nenhum pensamento tinha continuidade, um sufocamento, uma ansiedade, palpitações. Talvez fosse um problema cardíaco.
O ar espesso, a respiração pausada, dolorida, o desconforto da cadeira de madeira.
Algo dentro de si pressentia, clamava, atormentava.
O suor, os pensamentos descontínuos, o tremor das mãos, talvez não fosse um mal estar passageiro. Mas era tarde demais para admitir.