segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Deus Negro

Gosto quando fala do jeito que te dói, não que te queira sofrendo, mas é que fala dum jeito que o talho no peito que te fizeram é em mim que sangra. Tua verve enchendo os meus olhos de lágrimas, pus, desejo e salvação. E em mim aquele sangue, aquele sangue escorrendo descendo pelo peito sob a camisa que era branca, aquela dor que não existia, mas que de tanto o sangue se perder me fez acreditar que era um corte enorme que atravessava todas as barreiras da carne e atingia o intangível, e tu ia dizendo, dizia do silêncio, dizia do medo, dizia do poder, da coerção, dizia do cigarro, das drogas, dos homens, e dizia tanto que pela intensidade do sangue o talho havia se instalado na alma. Quase uma doença, um deus negro, noites no bar. E eu querendo te ouvir, mesmo não parando de chorar mesmo vertendo pus desejo e salvação dos meus olhos pequenos e retraídos. E quis te entender, mas acho que não era preciso dizer, já não se via mais o branco, só vermelho, vermelho intenso, deuses negros.
E disse que sentia saudades, às vezes vontade de chorar, disse de algumas lembranças da infância e de gente que nem conheceu, disse da flor, das idéias e de alguns céus de diamantes, e eu já era toda uma cor exuberante, eu era tudo e mesmo assim continuava sendo nada, e disse da força que brotava de dentro, dos impulsos e de algumas certezas súbitas que causavam espanto. E rasquei a camiseta branca, agora era só teu sangue na minha pele escorrendo, era só teu sangue transbordando em mim. E disse que eu precisava me dedicar, disse do caminho das escolhas e eu outra vez fui tudo mesmo ainda sendo apenas um corpo cuja pele se confunde com sangue.
E tua voz foi se enfraquecendo e me aproximei para te ouvir e cheguei bem perto, cada vez mais perto e tua voz cada vez mais rouca, cada vez mais fraca. Num ponto em que caístes na calçada e me desesperei também e não disseste nada, mas eu precisava que dissesse diga diga diga, pelo amor do deus que um dia existiu, pelas noites no bar.
E eu com o ouvido muito próximo da tua boca e exalastes um som como margaridas, tulipas ou jasmins, exalastes um grito mudo de dor em que me fizestes cair também e não sabia se o que havia amortecido minha queda era a aspereza da calçada, a minha cama ou ainda se eram nuvens se era vida ou alucinação. E vi teu corpo estendido ao lado do meu e minha pele não era mais teu sangue e pensei em chorar e chorei desesperadamente quem sabe por minutos quem sabe por horas ou dias ou meses inteiros e quando dei por mim teu corpo já não estava mais lá e quis te beijar, um beijo de amor de dor, quis beijar tua dor, quis me mostrar grata as palavras que me disseste e que mais tarde te levariam ao chão que não saberei nunca se era feito da aspereza do asfalto, da minha cama ou ainda de nuvens. Quis que o sangue jorrasse, não compreendia aquela dor que se parecia tanto com a tua e, no entanto era a minha, não compreendi e eu não te ouvia mais e não via corte algum, não via sangue, nem deuses ou flores e tive certeza, como me dissestes antes, uma dessas certezas súbitas que causam espanto de que era um corte, um corte em mim que atravessava as barreiras da carne e atingia a alma e de meus olhos de novo aquela sensação de te ouvir, mas agora dentro de mim, dentro do meu sangue, em todas partes de mim sussurrando entre espelhos: lagrimas, pus, desejo e salvação. Tua verve para sempre enchendo os meus olhos.

Ir à França

Ele me disse que temia morrer, eu lhe disse que não havia com o que se preocupar, a noite era bonita e nós jovens.
A fumaça do cigarro dele me embrulhava o estômago, por instantes senti repulsa de tê-lo ao meu lado, ainda mais depois que me disse que sente medo da morte.
Eu não o enxergava, a luz do quarto era fraca, vinha da rua, mas na certa devia estar de olhos fechados, ele era fraco, não suportava enxergar o breu. Eu não achava desconfortável, mantive os olhos abertos, era só a ausência de luz, nada mais.
Talvez ele me amasse, mas eu não o amava, seria incapaz de amá-lo. Talvez, fosse incapaz de amar qualquer um, mas eu não estava preocupada com isso, não agora.
Senti que ele queria dizer algo, deu um breve suspiro, ajeitou-se na cama, acendeu mais um cigarro. Precisava criar coragem.
Fiquei esperando ele dizer, e por um instante foi como se pudesse ter visto sua boca abrir-se e meia vocal se estender no ar, mas ele não tinha coragem. Então eu lhe disse que desejava ir à França, ele riu. Eu lhe disse que gostava de sua risada.
Ele não disse nada, e eu continuei de olhos abertos avistando o infinito negro do quarto. Pensei em monstros, em fantasmas e na morte. Procurei a mão dele, segurei-a firme, ele tinha medo da morte. Eu não o amava, mas o protegeria.
Ele disse que me levaria a França, eu ri. Disse a ele que os sonhos eram livres, e fiquei pensando no que tinha acabado de dizer. Sonhos eram livres.
O breu do infinito do quarto se estendia em mim, desejei ter sono. Ele disse que precisávamos nos ver mais, eu concordei. Ele disse que sentia minha falta, eu sabia que talvez ele me amasse.
Eu não disse nada, ele também não disse nada. Não dissemos nada por um longo tempo, sua respiração era leve, calma, havia adormecido. Certamente sonhava que me levava a França. Os sonhos eram livres, a noite bonita e nós jovens. Não havia com o que se preocupar.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Nota de Rodapé

Vi hoje um assassino frio e calculista e me pareceu comum, como qualquer outro cidadão.
Certo que seu passado já era um tanto truculento, mas nessa madrugada havia alcançado o ápice, matou a golpes de cavadeira (instrumento usado na plantação de pinheiros) seu colega de trabalho. Aguardou que este alcançasse o sono profundo e o atingiu sem o direito de defender-se. O terceiro colega de trabalho, que também seria morto, fugiu.
Admito que já vi pessoas absolutamente “corretas” e dignas que me causaram menos empatia que um assassino frio e calculista.
Afinal, ninguém está livre de perder o juízo. Não falo necessariamente de homicídios, mas de pequenos atos, em que matamos pouco a pouco a alma de quem nos cerca e também a nossa.
Agora penso que é terrivelmente difícil manter-se com postura elegante o tempo inteiro. Chega uma hora, mais cedo ou mais tarde, em que você aguarda frio e calculista, a hora do descuido, o piscar de olhos, e enlouquece. Depois você se recompõe, e se parece com qualquer outro.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Respirar

Não se respira com facilidade. O ar sufoca, ameniza no peito um desenlace qualquer, incendeia esquecimentos, repreende a idéia, suja o ambiente. Não se tem notícias de um sujeito que por mais perfeito que fosse o organismo, um dia não teve dificuldades nesse ritual mecânico que indica vida. Por isso que por vezes se deseja travar o funcionamento dos pulmões, com métodos cada vez mais sofisticados: navalhas, seringas, cordas, remédios.

O ar é a desgraça da vida.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Créditos

I

dentro de mim
há só um som opaco
do salto alto contra a dureza do asfalto,
um cão faminto que late sem parar,
o esplendor de estilhaços de vidro,
o ruído de cupins devorando paredes,
dentro de mim,eternamente,
o estrondo de carros
que colidem em alta velocidade:
o silêncio da falta de sobreviventes.
II
A cabeça sempre agitada
Parada,
Não há nada em que se pensar.
A boca seca inundada
De silêncio,
Que me devolvam as palavras.

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Espiral

Ele tava me olhando com aquela cara estranha de quem vai dizer algo, então já fui me preparando pra ouvir o que quer que fosse, mas ele não sabia muito bem o que ia me dizer, ficou parado com aquela cara, como quem procura as palavras certas, ou então não sabia como me dizer o que ia me dizer.
Mas eu fiquei ali, daquele jeito, fingindo que não sabia que ele tinha algo a me dizer. Até que sem nenhuma espera ele segurou meu braço, não disse nada, mas ficou me olhando com uma cara de espanto e eu ao ver aqueles olhos turbulentos acompanhei o seu olhar que ia direto pr’um pronto acima do horizonte. Pensei que fosse piração da minha cabeça, mas logo seu dedo indicador estendeu-se na mesma direção, confirmando o que seus olhos queriam me mostrar.
Então eu forcei a vista de um jeito cético e um nó seco me prendeu a garganta, nunca fui de ficar amedrontado, mas confesso que fiquei impressionado. E era uma espiral gigantesca feita no céu. Nas mais diversas cores, numa psicodelia juvenil inexplicável, mas eu era homem feito e sóbrio. Aquilo só podia ser obra de um anjo de deus ou do diabo.
E fiquei pasmo parado olhando pro céu, aquela infinidade de cores naquela espiral. E vi que ele ainda continuava daquele jeito. E eu fiquei calado, tentando encontrar uma razão pr’aquilo tudo, ou então dizer algo.
E quanto mais eu olhava mais alucinante era o que eu via, então coloquei as mãos nos bolsos da calça, baixei o olhar pra terra seca e mordi meu lábio inferior. Louco eu não era.
Foi então que distraído desse jeito senti sua mão fria de novo a me segurar, meu coração acelerou-se com a idéia de que a aparição pudesse ter se transmudado pra outra coisa. E então acompanhei de novo seus olhos turbulentos, o dedo indicador não se faz mais necessário, de súbito avistei o céu, e nada mais havia ali. E eu homem feito e sóbrio, duvidei da minha lucidez.
E ele continuou me olhando com aquela cara estranha de quem vai dizer algo, e eu pensei que dessa vez ia mesmo dizer algo e fiquei olhando pra ele a espera de quê dissesse qualquer coisa, mas ele não sabia muito bem o que ia me dizer.
E dessa vez eu o compreendia.

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Pensamentos Áridos

Grita, expulsa teus demônios.
Arranha a carne crua e má que te oprime, esquece o gosto insosso do teu sangue seco que se criou nas feridas.
Grita, como se já não houvesse outra saída além de gritar, como se estourando os tímpanos alheios os problemas sumissem.
É preciso beijar a terra, esfregar esse pedaço do universo na tua pele, fundir-se ao pó, ao barro que te originou.
Já não importa se o branco dos teus olhos ficarem vermelhos, se a raiva se sobrepuser à razão, és um animal sem tempo para sutilezas. Foi ferido onde dói, mais: arrancaram de ti tuas certezas, arrancaram de ti a muralha de cinismo com que te defendia.
Grita! Grita! Já não a mais porque suportar em silêncio, se o vermelho dos olhos dizem tudo.
Expulsa esses demônios, expulsa e depois aprecie tua alma leve. Na paz exarcebada que se apodera do teu espírito conflituoso. Um espírito pronto pra ser livre, um animal ferido.
Grita, junte-se ao chão fértil que te deu a vida, fure os tímpanos alheios. O vermelho dos olhos já dizem tudo.

Vontade De Voltar Atrás

*Escrito por T. Vicente.

Era tarde e seu plantão já acabara, não havia mais ônibus naquele horário, ligou e chamou um táxi.-Boa noite, pra onde senhora ?
-Av. Juares de Medeiros 71. Sabe onde fica?
-Sei sim. Está tarde mesmo pra ir de ônibus, né? Acho que nem tem mais há essa hora...
-Meu serviço faz isso comigo, chego tarde todos os dias.
-Seu marido deve chiar, né?
-Chiou sim, mas nos separamos por causa disso. Ele odiava que eu chegasse tarde, então me disse pra escolher entre ele e o trabalho, eu acabei escolhendo o trabalho.
-Minha mulher trabalha fora também, mas chega cedo. Porém eu tenho que fazer alguns dias à noite pra poder suprir nossas necessidades, a vida tá difícil. Pronto, chegamos. R$ 23,50.
-Se eu me atrasar mais do que 10 dias durante o mês no meu plantão, vou deixar o meu salário com o Sr.
-Espero que sim, opa! Que não. Uma boa noite Senhora.
-Boa noite...
O elevador parecia uma caixa de concreto que nunca chegaria ao seu andar, o sono a consumia. Seus olhos já não a obedeciam e a única coisa que ela queria era se jogar na cama macia e bagunçada, pois não havia a arrumado quando saira atrasada.
Ao entrar no apartamento, ela arma o despertador para que a acorde às 6 horas da manhã, e sem ao menos fazer a higiene, deita-se em sua cama. O mundo pareceu parar e o colchão abraçava-lhe de uma forma que ela nunca mais sairia dali. Ela escutou um barulho , se assustou, levantou da cama. Ele disse:
-Volte pra cama, querida.
E ela disse:
-Vou ver o que é e vou aproveitar para escovar os dentes. Era só a torneira que estava pingando e a água escorria pela lajota, molhando o vaso de plantas que ficava ao lado do sanitário. Quando olhou para trás, lá estava ele:
- Querida, porque não larga esse serviço e fica em casa por uns tempos? Está deixando você tão cansada, nos finais de semana você só quer dormir. Isso quando não está de plantão. Ela respondeu:
-É o que eu gosto de fazer, querido. E já conversamos sobre isso diversas vezes. Ela volta pra cama. As cobertas estão quentes, como se alguém estivesse deitado nela por horas. Ela ouve outro barulho, e comenta:
-Assim eu não consigo dormir. Preciso acordar cedo amanhã e já é quase duas horas, não é tu que trabalha o dia todo, volta pra cá e dorme também.
Ela levanta angustiada, liga a teve, ela fala alto no meio da madrugada:
-Se tu não gosta do meu trabalho vai embora, me deixa com ele, eu gosto muito. Muito mais dele do que de ti, já faz tempo que eu estou para te dizer isso, goste ou não! Ele responde:
-Se amanhã tu acordar e eu não estiver mais em casa não fique surpresa. Então, ela retruca:
-Tu não faria isso. Tu não tem coragem de me deixar, tu me ama. Vamos deitar de uma vez. O relógio a acorda, são seis da manhã. Ela acorda com uma sede e com um gosto na boca de quem não escovou os dentes. Ainda com a roupa do trabalho, ela se levanta e vai tomar um banho. A sua cama está vazia, mas ela não nota, pois já faz tempo que acorda sozinha.

terça-feira, 1 de julho de 2008

Pássaro Manso

Tava cansado de todo esse lixo, estar ali ou não estar, tanto faz, era sempre como se não estivesse. Queria mesmo era que o azul do céu ficasse sempre suspenso sobre sua cabeça, mas não, malditas nuvens rancorosas que lhe faziam sombra. Maldito dia que nunca acabava maldito sapato que lhe apertava os dedos maldito dia que resolveu ganhar dinheiro. Então era isso, essa gravata, essa mulher que se diz sua secretária, esses papéis que devia ler, concordar ou não e assinar, as transações do mercado, o rival da empresa, tanto faz, tanto faz, era como se não estivesse ali.
Malditas nuvens rancorosas, argh, nem ao menos via o céu. Mas sabia que estava lá, sabia que o certo era sair e deixar tudo assim, no caos, o certo era abrir a janela e voar como pássaro, ahhh um pássaro no céu manso e sozinho. Pensava nisso enquanto a secretária, sempre ela, lhe avisava que a reunião das 15 horas foi adiada, pouco importa, se tudo que queria era ser um pássaro.
O mundo moderno, os homens modernos, a sociedade moderno, asco, nojo a realidade que lhe cercava. Lixo, lixo, estava cansado dessa luta de classes, cansado de estar na burguesia, cansado de ser qualquer coisa, mas não era socialista ou comunista ou anarquista, ou qualquer outra política de esquerda, não. Amava seu dinheiro, apenas estava cansado de ter que ser algo, cansado do fardo da liberdade. Talvez estivesse escolhendo errado, argh, sim, talvez fosse uma escolha errada.
Mas dali ia pra casa, o alívio de poder tirar esses malditos sapatos, de pisar no carpete com os pés descalços, e estaria livre dessa secretária, não era uma má pessoa, até que simpatizava com seu sorriso, mas ela nunca sorria. Também pudera, o clima da empresa era sempre terrível. Talvez devesse fugir com a secretária, coitada, não merece viver num ambiente daqueles, devia fugir com ela ou então convidar ela para ser pássaro. Bem mais bonito dois pássaros no céu manso do que um só. Mas que imagem teria a secretária de mim? Sim, eu sempre ocupado, sempre nervoso, sempre estressado, sempre como se estivesse ausente, sempre me adaptando e já quase sendo parte de todo aquele lixo.
Talvez devesse sorrir amanhã para ela, pra não parecer tão frio quando e tão estranho quando a chamasse em sua sala e lhe dissesse “Senhora Elizete, quer ser pássaro comigo? Sim, isso mesmo, pássaro. Não me olhe com essa cara, eu sei que está tão cansada quanto eu desse lixo, e que por isso pouco sorri. Digo mais, gosto do seu sorriso. Já imaginou que bonito nós dois num céu manso e azul? Não, não estou ficando louco, já disse para não me olhar com essa cara. E então, o que me diz?” Se ela aceitasse era só abrir a janela, mas corria o risco dela não entender nada e começar a gritar impropérios a sua pessoa. É, talvez fosse melhor voar sozinho, pensava enquanto folheava o jornal sem ler matéria alguma, apenas indo em direção ao horóscopo. Não que acreditasse nisso, longe disso, mas era mortal, não podia deixar de ler. “Dia ruim nos negócios”, oras, todos os dias são ruins no negócio, aquele lixo, aquela gravata insuportável, o cargo das escolhas. Mas na verdade tanto fazia, era como se não estivesse ali.
Mas talvez se Elizete aceitasse o convite... Maldita Elizete que tinha o direito de recusar o seu convite, devia mesmo ficar penando naquele lugar horroroso, era tão simples, só dizer sim. Pensava nisso ainda minutos antes de dormir, isso misturado ao dia ruim nos negócios e de na verdade todos os dias serem ruins o cansaço o céu manso, pássaro sozinho, será que sorria amanhã para Elizete?
Maldito fardo das escolhas, o sapato apertado de amanhã, arghh, malditas nuvens rancorosas.

domingo, 22 de junho de 2008

Feito Na Hora, Como Pastel!

Só se ouvia o vento. A janela com panos, segurando os vidros para que não atrapalha-se seus pensamento bons, que eram tão raros naquela noite de angustia. Ela já não agüentava mais tanta chuva e não conseguia terminar seu trabalho que já estava acumulado há horas, e a data de entrega logo chegaria. Justo, pois era tão fácil publicar um conto em 24 horas, é escrever ou morrer!!!
Melhora a temperatura e seus pés com duas meias, já não estão tão gelados e seus dedos duros já se acolhem em meio a luvas mais frescas.
Portanto a noite já caia e pela manhã a entrega era esperada, se ouve uma batida na porta. Quem seria naquele momento tão importuno e molhado?
Mergulhou em seus pensamentos até chegar à porta, quando abriu, sentiu que sua sorte virava. Eram apenas meninos que precisavam ligar para suas mamães, pois sua rua estava cheia de água e esperariam mais algumas horas pra voltar pra casa, fizeram suas ligações e foram de volta pra rua.
Sua mente, que já não estava associando o real do imaginário, acendeu-se. E como num passe de mágica tudo veio a sua cabeça. Como crianças ajudam uma pessoa pobre de pensamentos a ter idéias mirabolantes...
Tudo começou com um grito: PASSAAAAAAAA
-Chuta logo, me dá aqui, tenho que ir embora minha mãe me chama e preciso jantar.
-Deixa ele ir! Vamos ficar aqui conversando, moramos mais longe e nosso ônibus só passa daqui a 2 horas.
Eles ficam ali, todos mentindo um para o outro. Meninas passam, todas cheias de roupas e seus pensamentos só lhe fazem dizer, que saudade do verão!
As roupas grossas fazem com que todos fiquem uns dois quilos mais pesados, porém todos elegantemente mal vestidos. A chuva parece eminente e começa forte, eles se abrigam num canto do parque, onde brigavam por um espaço em baixo da marquise. Carros de todas as cores passavam com pressa e em poucos minutos já levantavam ondas na rua. O frio se acentua e o corpo deles se encolhe como plástico derretido.
Durante algumas horas eles pensam em ir assim mesmo e molhar seus cabelos, mas a chuva era tão forte e o vento cada vez mais rápido e cortante.
Logo a noite caiu, e já não havia modo de irem embora. Foram até uma loja de televisores e viram na reportagem que suas ruas estavam em baixo d’água e que carro nenhum, nem ao menos ônibus, estava indo pra lá.
Avistaram uma casa de madeira, linda. E muito rústica, onde só uma luz estava acessa, resolveram pedir um favor ao dono da casa.
Bateram na porta. Uns pensaram em correr, mas o mais velho deles ficou ali, parado. E todos ficaram pra ver o que ele iria dizer ao Sr. daquela casa tão velha e bonita.
Mas todos ficaram surpresos quando viram uma linda mulher abrir a porta, com cara de zangada, mas logo mudou sua fisionomia.
O mais velho disse: podemos ligar para nossas mamães?
Ela deixou. E disse: Sejam breves, ok? Estou escrevendo e preciso entregar isso amanhã de manhã. Meu filho acabou de dormir não façam barulho, ele jogou bola a tarde toda na praça aqui perto. De repente vocês o conhecem!Ele levou a bola dele pra praça...
Menino de ouro, merece dormir. Usem esse telefone e podem sair pela porta que entraram, vocês me trouxeram uma idéia legal.


Escrito por T. Vicente, um ótimo conto.
=]

Cinza


"Na santa paz de Deus, no mais perfeito caos..."

sexta-feira, 20 de junho de 2008

Poemas de Um Amigo

Ao que, ele se revela um grande poeta: Luiz Godard.



Se ela vier por aqui

Se ela vier por aqui,
Diga-lhe que estou bem.
Apesar de nessa cidade vazia
Nao conhecer quase ninguem.
Apesar das noites interminaveis,
Das sombras nas paredes sujas.
Diga-lhe que estou bem
Mesmo camuflado nas ruas.
Se ela vier por aqui,
Diga-lhe que estou sorrindo.
Apesar dos olhos molhados
afirmarem que estou mentindo.
Apesar de tantas noites vazias,
Perto de tantos estranhos.
Diga-lhe que estou bem
Mesmo sem seus olhos castanhos.
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Clara

Clareou o dia, Clara.
Com sua face nua.
Clarearam os olhos, Clara,
com sua vista crua.
Clarearam as aguas claras
e mais claras ficaram ...
e algo mais caras
claro, também se tornaram.

E mais caras surgiram
Nas noites já claras.
Porém Clara, claro, eles nao a conhececiam.
Moeda velha de duas caras.
Quando na confusao, Clara,
a noite ficou um tanto escura.
E já nâo se enxergava a cara,
que de tâo cara já nos parecia dura
E entao claro,
clareou a noite e fez-se dia,
e já nao eram caras nem carros,
era Clara, que clareando, para casa se ia.
(Sou tua fã, baby...)
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Às flores que nao brotaram
Com as mãos no bolso,
com os pés descalços,
tanto gritei que mal ouço,
o ruido dos teus passos.
A desilusão como troféu...
O vazio da misercórdia...
O gosto amargo do mel...
Os pensamentos em custódia.
Com a mente distante
e as pernas cansadas.
Pregado no instante
com as verdades cruzadas
maldigo o teu nome,
grito ódio ao vazio.
O vazio de quem tem fome
ao leito de um seco rio.

Às flores que não brotaram
adeus... ao dia tão frio.
Aos que do inferno não me salvaram,
os digo : eu prefiro esse vazio!
Com as mãos no bolso,
e o coração aberto.
Um passo lento, pereçoso,
num longo caminho incerto.

sexta-feira, 6 de junho de 2008

De Oscar Wilde, “DE PROFUNDIS”

“É preciso que eu faça com que tudo aquilo que me aconteceu tenha acontecido para o meu próprio bem. Não há um só ato que avilte o corpo que eu não deva transformar numa forma de espiritualização da alma...E se a vida é para mim um problema-como certamente acontece-eu também não deixo de ser um problema para ela. Minha única preocupação é minha atitude mental diante da vida como um todo.
É preciso que eu aprenda a ser feliz. Antigamente eu sabia, ou pensava sabe-lo, por instinto. Antigamente era sempre primavera no meu coração. Meu temperamento era sempre sinônimo de alegria, eu enchia a minha vida de prazer até a borda, como quem enche o seu copo de vinho até a borda.
Desejo viver para poder explorar o que é para mim nada menos do que um mundo novo. Quer saber qual é esse novo mundo? Creio que é capaz de adivinhá-lo: é aquele em que tenho vivido o sofrimento, e tudo aquilo que ele pode ensinar, é o meu mundo novo. Depois de terríveis lutas e dificuldades, consegui, durante estes últimos anos, entender algumas das lições que se escondem no âmago da dor.
Pois o segredo da vida é o sofrimento. É ele que se oculta atrás de todas as coisas..."

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Os Homens de Carne e Osso

Lá fora, os homens feitos de carne e osso trabalham arduamente. Homens com uniformes sujos e desengonçados, que escondem das vista a imperfeição da carne e dos ossos. Desbloqueiam as ruas a base de suor, sangue, força e cansaço. Desbloqueiam a rua lá fora, enquanto eu tento desbloquear as vias da minha vida aqui dentro. Suor, sangue, força e cansaço, impregnados em um corpo de carne e osso.
Aqui dentro quando penso na vida, não a posso achar mais injusta. Lá fora, os homens que trabalham na rua, quando pensam na vida, tão pouco a podem ver menos injusta. O que temos em comum são todas as conveniências que calejam a alma, e o fato de ambos sermos de carne e osso.
É conveniente a eles que façam barulho, que tragam máquinas enormes, das quais não sei o nome, e aos poucos, desbloqueiem a rua. E depois dessa rua, muitas outras ainda precisarão sofrer as mesmas providências. Ao que, sendo o mundo do jeito que é, e tendo eu e os homens lá fora essa mesma percepção, irão receber pelas gotas de seu suor, sangue, força e cansaço muito menos do que mereciam. Mas ainda assim, quase como uma ironia, sentir-se-ão satisfeitos, por recebê-la.
Aqui dentro, incomodado pelo barulho dos homens lá fora e pelo barulho de meus pensamentos, tenho na boca a amarga sensação do suor, do sangue, da força e do cansaço. Atenuado pelo desconforto que a carne e os ossos produzem. Viver é exaustivo.
Abro a janela e vejo-os nitidamente, são tão reais quanto eu. Lá fora, vejo a origem do barulho e expressões rudes incumbidas pela força utilizada. Fecho a janela, e ao contrário do que supunha, não vi em parte alguma a origem dessa inquietação que me agonia, sendo que esta também é tão real quanto eu ou os homens lá fora. Calar-se-ão os barulhos lá fora e, entretanto aqui dentro os barulhos permanecerão insistentemente.
Os homens de carne e ossos regressarão as suas casas, a rua já estará desbloqueada. Mas meu suor, meu sangue, minha força e meu cansaço não serão o suficiente para desbloquear as vias de minha vida.
Viver é exaustivo

terça-feira, 3 de junho de 2008

Soslaio Para Um Sol

o sol dos
olhos
saltam
pela face
em busca
de terras
que possam
iluminar.
saltam
em sutis movimentos
chamados
olhar.

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Objeto Estranho...

A faca introduzida ao peito fez-se necessário. A falta da faca introduzida no peito causava um vazio, um tormento insuportável, maior do que o objeto estranho cravado em seu corpo.
A faca arraizou-se tanto e já era tão bem-vinda que acabou por fazer parte de seu semblante. Já nem temia uma possível infecção, a faca já não era mais um objeto estranho.
E todos achavam graça daquele homem cujo peito nunca parava de sangrar, e espantavam-se mais ainda ao se deparar com aquele metal atravessando a camisa, em direção ao peito.
Um dia, num mal jeito qualquer, sentiu que a faca atingiu uma profundidade maior, rasgando-lhe as paredes da alma, mas logo o desconforto da dor foi substituído por suaves pensamentos de que cada vez mais a faca era parte dele. Ele que achava temível demais sobreviver com o vazio que a ausência da faca lhe causaria.
O peito sangrava. Dia e noite. O peito sangrava.
E logo seu sangue fez-se pouco, fez-se um homem fisicamente fraco. Mas quanto mais o corpo sofria mais a alma se enrijecia. Sentia-se quase feliz, fato raro em todos os seus anos vividos.
A faca introduzida no peito fez-se necessário.
E sabia que seria esse seu fim, sabia que morreria, sabia que seu sangue se esvairia, que sua força se perderia. Mas sentia-se tão leve, que a temeridade tornou-se insignificante.
Que venham as dores, as febres incandescentes, os desvarios. Definharia aos poucos, definharia sem jamais ousar tirar a faca do peito.
Iria morrer, morreria de um mal necessário, morreria de amor.

sexta-feira, 9 de maio de 2008

O Segredo De Cada Dia

Não havia dúvidas. O que estava enrolado com aqueles panos vermelhos e sujos era um corpo, um cadáver. Que na certa teve uma morte lenta e dolorosa, e tudo isso porque sabia demais. Estava no lugar errado na hora errada. E eis o que acontece a pessoas azaradas, acabam enroladas em panos vermelhos e são jogadas de qualquer jeito em porta-malas de carros.
Depois disso não se sabe mais nada. Pode ser que sejam enterradas no quintal do malfeitor, ou jogadas em alto mar. E há quem diga ainda que a perversidade é tanta que são capazes de picar o corpo em pedacinhos e fazer dele linguiça, e ainda com mais sofisticação há quem faça sabão.
Por isso me abstenho a qualquer coisa que veja ou ouça que me pareça suspeito. Qualquer indiscrição pode custar a minha vida.
Ontem mesmo, estava na fila do banco quando ouvi os dois senhores a minha frente (vestidos com muita destinção, diga-se de passagem) dizendo: "Dentro de 5 minutos a casa cai, você pega a senhora de azul e eu o homem calvo a direita." Não tive dúvidas, um assalto se faria dentro de instantes e estavam escolhendo os reféns do crime. Virei-me sinuosamente em direção a porta giratória e sai o mais rápido possível. Na manhã seguinte, em quanto saboreava meu café, li nas páginas policiais as notícias do assalto.
Nunca comentei o acontecido com ninguém, assim como não comento os corpos que vejo em porta-malas, as doses de veneno postas meticulosamente em copos de bebidas, as casas saqueadas em plena luz do dia, os tiros certeiros, os papéis levemente falsificados.
É assim que me mantenho vivo, cego as verdades.
Nestes meus 17 anos de ofício como delegado, a justiça pode muitas vezes não ter sido feita, mas que justiça haveria de ter na morte de uma pessoa inocente?
Não sinto culpa de ocultar os fatos, tenho certeza de que o que vi hoje enrolado no porta-malas do carro, em panos vermelhos era um cadáver. E tudo isso porque sabia.

terça-feira, 4 de março de 2008