segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Deus Negro

Gosto quando fala do jeito que te dói, não que te queira sofrendo, mas é que fala dum jeito que o talho no peito que te fizeram é em mim que sangra. Tua verve enchendo os meus olhos de lágrimas, pus, desejo e salvação. E em mim aquele sangue, aquele sangue escorrendo descendo pelo peito sob a camisa que era branca, aquela dor que não existia, mas que de tanto o sangue se perder me fez acreditar que era um corte enorme que atravessava todas as barreiras da carne e atingia o intangível, e tu ia dizendo, dizia do silêncio, dizia do medo, dizia do poder, da coerção, dizia do cigarro, das drogas, dos homens, e dizia tanto que pela intensidade do sangue o talho havia se instalado na alma. Quase uma doença, um deus negro, noites no bar. E eu querendo te ouvir, mesmo não parando de chorar mesmo vertendo pus desejo e salvação dos meus olhos pequenos e retraídos. E quis te entender, mas acho que não era preciso dizer, já não se via mais o branco, só vermelho, vermelho intenso, deuses negros.
E disse que sentia saudades, às vezes vontade de chorar, disse de algumas lembranças da infância e de gente que nem conheceu, disse da flor, das idéias e de alguns céus de diamantes, e eu já era toda uma cor exuberante, eu era tudo e mesmo assim continuava sendo nada, e disse da força que brotava de dentro, dos impulsos e de algumas certezas súbitas que causavam espanto. E rasquei a camiseta branca, agora era só teu sangue na minha pele escorrendo, era só teu sangue transbordando em mim. E disse que eu precisava me dedicar, disse do caminho das escolhas e eu outra vez fui tudo mesmo ainda sendo apenas um corpo cuja pele se confunde com sangue.
E tua voz foi se enfraquecendo e me aproximei para te ouvir e cheguei bem perto, cada vez mais perto e tua voz cada vez mais rouca, cada vez mais fraca. Num ponto em que caístes na calçada e me desesperei também e não disseste nada, mas eu precisava que dissesse diga diga diga, pelo amor do deus que um dia existiu, pelas noites no bar.
E eu com o ouvido muito próximo da tua boca e exalastes um som como margaridas, tulipas ou jasmins, exalastes um grito mudo de dor em que me fizestes cair também e não sabia se o que havia amortecido minha queda era a aspereza da calçada, a minha cama ou ainda se eram nuvens se era vida ou alucinação. E vi teu corpo estendido ao lado do meu e minha pele não era mais teu sangue e pensei em chorar e chorei desesperadamente quem sabe por minutos quem sabe por horas ou dias ou meses inteiros e quando dei por mim teu corpo já não estava mais lá e quis te beijar, um beijo de amor de dor, quis beijar tua dor, quis me mostrar grata as palavras que me disseste e que mais tarde te levariam ao chão que não saberei nunca se era feito da aspereza do asfalto, da minha cama ou ainda de nuvens. Quis que o sangue jorrasse, não compreendia aquela dor que se parecia tanto com a tua e, no entanto era a minha, não compreendi e eu não te ouvia mais e não via corte algum, não via sangue, nem deuses ou flores e tive certeza, como me dissestes antes, uma dessas certezas súbitas que causam espanto de que era um corte, um corte em mim que atravessava as barreiras da carne e atingia a alma e de meus olhos de novo aquela sensação de te ouvir, mas agora dentro de mim, dentro do meu sangue, em todas partes de mim sussurrando entre espelhos: lagrimas, pus, desejo e salvação. Tua verve para sempre enchendo os meus olhos.

Ir à França

Ele me disse que temia morrer, eu lhe disse que não havia com o que se preocupar, a noite era bonita e nós jovens.
A fumaça do cigarro dele me embrulhava o estômago, por instantes senti repulsa de tê-lo ao meu lado, ainda mais depois que me disse que sente medo da morte.
Eu não o enxergava, a luz do quarto era fraca, vinha da rua, mas na certa devia estar de olhos fechados, ele era fraco, não suportava enxergar o breu. Eu não achava desconfortável, mantive os olhos abertos, era só a ausência de luz, nada mais.
Talvez ele me amasse, mas eu não o amava, seria incapaz de amá-lo. Talvez, fosse incapaz de amar qualquer um, mas eu não estava preocupada com isso, não agora.
Senti que ele queria dizer algo, deu um breve suspiro, ajeitou-se na cama, acendeu mais um cigarro. Precisava criar coragem.
Fiquei esperando ele dizer, e por um instante foi como se pudesse ter visto sua boca abrir-se e meia vocal se estender no ar, mas ele não tinha coragem. Então eu lhe disse que desejava ir à França, ele riu. Eu lhe disse que gostava de sua risada.
Ele não disse nada, e eu continuei de olhos abertos avistando o infinito negro do quarto. Pensei em monstros, em fantasmas e na morte. Procurei a mão dele, segurei-a firme, ele tinha medo da morte. Eu não o amava, mas o protegeria.
Ele disse que me levaria a França, eu ri. Disse a ele que os sonhos eram livres, e fiquei pensando no que tinha acabado de dizer. Sonhos eram livres.
O breu do infinito do quarto se estendia em mim, desejei ter sono. Ele disse que precisávamos nos ver mais, eu concordei. Ele disse que sentia minha falta, eu sabia que talvez ele me amasse.
Eu não disse nada, ele também não disse nada. Não dissemos nada por um longo tempo, sua respiração era leve, calma, havia adormecido. Certamente sonhava que me levava a França. Os sonhos eram livres, a noite bonita e nós jovens. Não havia com o que se preocupar.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Nota de Rodapé

Vi hoje um assassino frio e calculista e me pareceu comum, como qualquer outro cidadão.
Certo que seu passado já era um tanto truculento, mas nessa madrugada havia alcançado o ápice, matou a golpes de cavadeira (instrumento usado na plantação de pinheiros) seu colega de trabalho. Aguardou que este alcançasse o sono profundo e o atingiu sem o direito de defender-se. O terceiro colega de trabalho, que também seria morto, fugiu.
Admito que já vi pessoas absolutamente “corretas” e dignas que me causaram menos empatia que um assassino frio e calculista.
Afinal, ninguém está livre de perder o juízo. Não falo necessariamente de homicídios, mas de pequenos atos, em que matamos pouco a pouco a alma de quem nos cerca e também a nossa.
Agora penso que é terrivelmente difícil manter-se com postura elegante o tempo inteiro. Chega uma hora, mais cedo ou mais tarde, em que você aguarda frio e calculista, a hora do descuido, o piscar de olhos, e enlouquece. Depois você se recompõe, e se parece com qualquer outro.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Bungee Jump

Você está andando na rua, mas você não está voltando do trabalho, você está apenas andando na rua, como os outros, com trajes informais e ar descontraído. E você se pergunta por que não faz isso mais vezes, dizem que é bom pro corpo e para a alma, e você realmente percebe que pensa em várias coisas enquanto está caminhando e seus músculos ainda não doem, apesar do suor já visível escorrendo de seus poros.
E você vê que algumas pessoas não andam sozinhas, algumas levam seu par, um amigo ou uma amiga, outros têm cachorros. E você se pergunta por que não faz isso acompanhado, deve ser bem mais prazeroso. É claro que no seu caso seria mais fácil comprar ou adotar um cachorro, e você se pergunta se valeria a pena ter um cachorro, você teria que dar banho, cuidar, adestrar, alimentar.
É, talvez seja melhor caminhar sozinho. E você percebe que os que andam sozinhos estão todos com fones nos ouvidos, mp3, mp4, radinhos, celulares. E parece que eles querem mesmo continuar sozinhos, compenetrados no que estão a ouvir, e você se pergunta por que ainda não cedeu a novas tecnologias, seria agradável caminhar ouvindo música.
Em algumas partes você poderia se imaginar atuando em algum filme, como se estivesse procurando um criminoso perigoso no meio da multidão e você olharia para a feição de cada um na rua, até encontrar, ou não, o criminoso perigoso.
Até que seus pés iriam começar a doer, e você se perguntaria por que não colocou um tênis apropriado para isso, você se lembraria de que não fez isso por que não tem um tênis apropriado para isso, afinal você só caminha quando está voltando do trabalho.
E logo a garganta ficaria seca, o sol abrasador faria você suar mais e mais, e você se pergunta se não deveria ter passado protetor solar, algo lhe diz que você ira se bronzear forçosamente.
E você percebe que eles usam óculos escuros, e você se lembra que óculos escuros não lhe caem bem, lembra daquela última vez na praia em que você comprou um óculos muito fashion. Tão fashion que ninguém foi capaz de perceber seu vanguardismo, mas você não deu muita bola para isso, afinal você nem liga para coisas fashions ou para vanguardismos.
E você lembra das coisas que deixou em casa para fazer, mas isso não é agradável e resolve que é melhor não pensar nisso agora. Você esboça um leve sorriso, como se estivesse realmente gostando disso, mas na verdade você só quer ser simpático com a senhora que passa caminhando por você, e você tem a sensação de que ela deve ser uma ótima avó. Tão querida.
E seus pés ainda doem, pelo jeito terá calos. E você sua como um condenado, você leva o pulso aos olhos e nota que esqueceu de por o relógio, não sabe ao certo por quanto tempo já andou. Mas acha que por bastante tempo, porque seu fôlego está pouco, e você se pergunta por que tem uma condição física tão ruim, não agüenta nem caminhar direito. Mas você não liga pra isso, afinal nem gosta muito de esportes. Se bem que os radicais parecem-lhe bastante atraentes, mas não tem certeza se pular de bungee jump pode ser considerado um esporte.
Até que você nota algumas pessoas andando de bicicleta, deve ser bem melhor andar de bicicleta, então você se pergunta por que ainda não comprou uma bicicleta e lembra que seu apartamento é minúsculo, não teria onde guarda-la. Se bem que, se fosse uma bicicleta bonita até que não seria uma má decoração, mas não, ninguém compreende seu vanguardismo.
E você se cansa de caminhar, mesmo não sabendo por quanto tempo andou, resolve voltar pra casa. Agora você muda de direção e o sol arde-lhe diretamente na cara, seus pés doem e há poucos que caminham na mesma direção que você.
Você nota pela placa da rua que andou bastante, uns 40 minutos pelo menos pra chegar até aquele endereço, e isso significa que você vai levar mais uns 40 minutos para voltar pra casa.
Seus pés doem e você sua muito, os músculos a está altura já estão um pouco doloridos e o sol lhe arde às vistas, você sabe que não tem uma boa condição física. No fim você acaba achando isso tudo muito desconfortável e se pergunta por que ráios resolveu ir caminhar, aí você se lembra que é bom para o corpo e para a alma, e que talvez fosse bom você fazer isso mais vezes. De qualquer forma você tinha coisas para fazer em casa, mas não, não, era melhor não pensar nisso.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Respirar

Não se respira com facilidade. O ar sufoca, ameniza no peito um desenlace qualquer, incendeia esquecimentos, repreende a idéia, suja o ambiente. Não se tem notícias de um sujeito que por mais perfeito que fosse o organismo, um dia não teve dificuldades nesse ritual mecânico que indica vida. Por isso que por vezes se deseja travar o funcionamento dos pulmões, com métodos cada vez mais sofisticados: navalhas, seringas, cordas, remédios.

O ar é a desgraça da vida.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Créditos

I

dentro de mim
há só um som opaco
do salto alto contra a dureza do asfalto,
um cão faminto que late sem parar,
o esplendor de estilhaços de vidro,
o ruído de cupins devorando paredes,
dentro de mim,eternamente,
o estrondo de carros
que colidem em alta velocidade:
o silêncio da falta de sobreviventes.
II
A cabeça sempre agitada
Parada,
Não há nada em que se pensar.
A boca seca inundada
De silêncio,
Que me devolvam as palavras.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Sobre O Travamento Humano

Pensa cabeça. Pensa. Que é pra isso que você foi feita. Como ousa me trair desse jeito, me deixando completamente infértil de idéias? Como ousa permanecer no mais concreto vazio, me deixando sozinho lastimando por um mísero de luminosidade?
Pensa cabeça, pensa. Que o problema ta aí, na sua frente. Estou aguardando uma solução, mas uma solução de verdade não essas cretinices que você vem me oferecendo, sabes que preciso de muito mais. Que você é capaz de muito mais.
Ou prefere um castigo tácito, desses medievais? Pensa droga, se não sofremos eu e você.
Tu ta olhando? Mas olha bem, ela ta me olhando. Me diz logo o que dizer, deixa de ser babaca. Quantos outros problemas teremos que enfrentar até você aprender a ser eficiente, a ser ágil? Ela vai embora se eu não disser nada, mas eu não sei o que dizer...
Cabeça, cabeça, onde está a desgraça da razão? Não eu não posso mentir, não quero mentir! Ah, claro, é fácil para você articular mentiras, mas agora expressar-se mediante a verdade, contar os sentimentos, isso não é com você. Sua estúpida, merecia mesmo um castigo estupendo!
O pior são esses olhos dramáticos na minha frente como se o mundo fosse desabar, e esse eu que não para de pensar mesmo estando alheio a outros pensamentos. Que raios eu to falando? Eu to suando frio, tenho a impressão que dezenas de olhos me fitam, todos tão angustiados quanto minha cabeça vazia.
Anda, pensa! jamais te perdoarei por uma traição como essa. Covarde!
.-Senhor Medeiros?
E esse homem, quem é ele? Ah, sim, ele é o homem responsável pela minha repentina crise, pelo meu vexame, meu não, dessa cabeça ingrata! Que dizer? Ele me olha carinhosamente, mas ela me olha como um bicho acuado, me olha prestes a sufocar num grito de desalento.
Árido, minha cabeça gira sem parar, meu estômago reflete essas voltas, ânsia insuportável. Talvez se eu desmaiasse, ao menos teria uma desculpa ou mais tempo para pensar. Esses olhos, esses olhos, essa dezena de olhos!
-Aceita Luzia como sua única esposa, prometendo amá-la e respeita-la na alegria e na tristeza, na saúde e na doença?
Pensa cabeça, pensa! Você me fez chegar até aqui e agora trava? Agora me deixa pateta na frente desse altar gelado, dessa cerimônia medíocre que você concordou só para satisfazer Luzia?
Luzia que me olha amedrontada, com olhos suplicantes. Que infeliz é você traidora, que infeliz dia que confiei minha vida a ti. Desmaiar, o certo era desmaiar, nem que fosse de cara no bolo. Ainda assim seria menos vergonhoso.
-Senhor Medeiros, sente-se bem?
Diz algo, diz algo. Não me faz perecer ainda mais. Cabeça, que espécie de mim é você?
-Sim... sim, aceito.
Aah! Finalmente, pensei que fosse me fazer perder a mulher mais linda que já vi, pensei que fosse me fazer sofrer irremediavelmente para sempre.
Sua estúpida, podia ter passado sem essa, sem esse suspense pelo qual terei, terei? Teremos! Isso sim, teremos que nos explicar... Isso é hora de travar? Medíocre, mas contigo eu me acerto depois.
Olha Luzia, sua face desprendeu-se do medo, como eu amo essa mulher.

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Um Apólogo - Conto de Machado de Assis

Um Apólogo

Machado de Assis

Era uma vez uma agulha, que disse a um novelo de linha:

— Por que está você com esse ar, toda cheia de si, toda enrolada, para fingir que vale alguma cousa neste mundo?
— Deixe-me, senhora.
— Que a deixe? Que a deixe, por quê? Porque lhe digo que está com um ar insuportável? Repito que sim, e falarei sempre que me der na cabeça.
— Que cabeça, senhora? A senhora não é alfinete, é agulha. Agulha não tem cabeça. Que lhe importa o meu ar? Cada qual tem o ar que Deus lhe deu. Importe-se com a sua vida e deixe a dos outros.
— Mas você é orgulhosa.
— Decerto que sou.
— Mas por quê?
— É boa! Porque coso. Então os vestidos e enfeites de nossa ama, quem é que os cose, senão eu?
— Você? Esta agora é melhor. Você é que os cose? Você ignora que quem os cose sou eu e muito eu?
— Você fura o pano, nada mais; eu é que coso, prendo um pedaço ao outro, dou feição aos babados...
— Sim, mas que vale isso? Eu é que furo o pano, vou adiante, puxando por você, que vem atrás obedecendo ao que eu faço e mando...
— Também os batedores vão adiante do imperador.
— Você é imperador?— Não digo isso. Mas a verdade é que você faz um papel subalterno, indo adiante; vai só mostrando o caminho, vai fazendo o trabalho obscuro e ínfimo. Eu é que prendo, ligo, ajunto...

Estavam nisto, quando a costureira chegou à casa da baronesa. Não sei se disse que isto se passava em casa de uma baronesa, que tinha a modista ao pé de si, para não andar atrás dela. Chegou a costureira, pegou do pano, pegou da agulha, pegou da linha, enfiou a linha na agulha, e entrou a coser.
Uma e outra iam andando orgulhosas, pelo pano adiante, que era a melhor das sedas, entre os dedos da costureira, ágeis como os galgos de Diana — para dar a isto uma cor poética. E dizia a agulha:

— Então, senhora linha, ainda teima no que dizia há pouco? Não repara que esta distinta costureira só se importa comigo; eu é que vou aqui entre os dedos dela, unidinha a eles, furando abaixo e acima...A linha não respondia; ia andando. Buraco aberto pela agulha era logo enchido por ela, silenciosa e ativa, como quem sabe o que faz, e não está para ouvir palavras loucas. A agulha, vendo que ela não lhe dava resposta, calou-se também, e foi andando. E era tudo silêncio na saleta de costura; não se ouvia mais que o plic-plic-plic-plic da agulha no pano.

Caindo o sol, a costureira dobrou a costura, para o dia seguinte. Continuou ainda nessa e no outro, até que no quarto acabou a obra, e ficou esperando o baile.Veio a noite do baile, e a baronesa vestiu-se. A costureira, que a ajudou a vestir-se, levava a agulha espetada no corpinho, para dar algum ponto necessário. E enquanto compunha o vestido da bela dama, e puxava de um lado ou outro, arregaçava daqui ou dali, alisando, abotoando, acolchetando, a linha para mofar da agulha, perguntou-lhe:

— Ora, agora, diga-me, quem é que vai ao baile, no corpo da baronesa, fazendo parte do vestido e da elegância? Quem é que vai dançar com ministros e diplomatas, enquanto você volta para a caixinha da costureira, antes de ir para o balaio das mucamas? Vamos, diga lá.

Parece que a agulha não disse nada; mas um alfinete, de cabeça grande e não menor experiência, murmurou à pobre agulha:

— Anda, aprende, tola. Cansas-te em abrir caminho para ela e ela é que vai gozar da vida, enquanto aí ficas na caixinha de costura. Faze como eu, que não abro caminho para ninguém. Onde me espetam, fico.

Contei esta história a um professor de melancolia, que me disse, abanando a cabeça:

— Também eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária!


Publicado originalmente em Gazeta de Notícias 1885Texto extraído do livro "Para Gostar de Ler - Volume 9 - Contos", Editora Ática - São Paulo, 1984, pág. 59.

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Banco de Ônibus

Eu pegava aquele ônibus todos os dias. As 13h05min, despontualmente, porque ele nunca chegava no horário. Dali ia para o trabalho, por isso sempre levava umas pastas com folhas importantíssimas dentro.
Eu pegava esse ônibus porque ele estava quase sempre vazio, tinha mais espaço para mim e para as minhas folhas e porque aquele tumulto todo me ferve o sangue.
E tinha o cobrador, um cara branco com cabelos engraçados. Engraçados mesmo, meio que tinha uns cachos estranhos, não sei explicar. Mas era um bom sujeito, sempre disposto e tal, mas eu não tava pra amizades, já pegava esse ônibus porque ele tava quase sempre deserto. Podia me sentar sozinho e ficar vendo o mundo, cada vez mais sujo, passar pelos meus olhos. Era ainda mais cinematográfico quando chovia, aí sim, sentia-se muito bem.
O fato era que nos primeiros dias ele me tratou um tanto quanto formalmente, “Boa tarde, senhor. Até onde?”, mas depois já foi pegando intimidade “Mais um dia não é Senhor? Até o Centro Comercial?”. E eu até aí suportava, porque depois ele ia embora, não ficava puxando assunto.
Mas um dia ele chegou com o seu “Boa tarde, senhor” e começou a me falar coisas qualquer de sua vida, de uma gripe que passageira, do clima que muda tão rápido, e eu fingi atenção. Momento pelo qual me arrependo até hoje, foi como se dissesse “Sim, podemos criar uma relação amigável”. Mas não podíamos não, aquilo tudo era mero acaso, ele estava ali e eu também, ele tinha problemas e eu também, mas não estava ali disposto a amizades.
Depois a coisa deslanchou, certo dia me falou de seu casamento e me pediu se eu era casado, eu disse que não, que era solteiro. E ele começou a inventar histórias, e me dizer que eu era um sujeito de sorte por não estar preso a nenhuma mulher, cara, aquilo já estava me enchendo muito o saco. Eu só queria ficar sozinho no banco do ônibus, mas daí o cobrador achava que tinha liberdades para comigo e ficava ali, conversando, porque o ônibus era quase sempre deserto.
Eu pensei que talvez fosse melhor pegar o ônibus das 13h15min, mas esse estava sempre lotado. E certamente teria um desconhecido do meu lado que não iria se conter e fazer comentários, e isso me ferve o sangue.
Pensei também em ir a pé, mas eu demoraria tempo demais. Pensei em táxi, ou em comprar um carro, mas não, nada disso era solução certa pra mim.
Não tinha jeito, cinco dias por semana era aquele sujeito branco do cabelo engraçado conversando como se fossemos amigos de muito tempo, mas não éramos amigos. Jamais seriamos.
Até que Ronni, esse era o nome do cobrador, me convidou para ir visitá-lo em sua casa, conhecer sua família. Foi aí que me dei conta de que as coisas tinham evoluído demais, que eu fingindo atenção a um desconhecido fiz um vínculo.
Até pensei em ir, mas não podia. Eu não queria uma amizade, nem queria ficar fingindo atenção. Só queria ver o mundo, cada vez mais e mais sujo passando pelos meus olhos.
E certa tarde não me contive, sei que por Ronni estar envolvido nesse vínculo, magoei-o, mas não podia deixá-lo se iludir, não podia mais fingir atenção.
Foi como os dias de sempre “Boa tarde, como vai?” e daí em diante ele nem me deixou responder, saiu falando do seu time de futebol, e eu nem gosto de futebol, mas fui ouvindo e ele começou a fazer comentários da morena que havia subido no ônibus, e eu completamente de saco cheio, e ele falando que a vida era difícil, das contas do fim do mês, contas? Isso me fez lembrar que tinha esquecido um dos meus papéis super importantes na gaveta de casa.
Meu sangue ferveu, ele lá, “blá blá blá blá”, interrompi-o sem me dar por conta do que ele dizia.
-Cala a boca! Gritei eu tenso, ele me olhou com aqueles olhos derramando surpresa.
Eu nem fiz conta, ele me pediu desculpas, assim, querendo levar a conversa adiante, como se tivesse errado, mas ele não tinha errado. Quem havia errado fui eu no dia em que fingi atenção e assim lhe dei permissão para conversar comigo.
Então virei o olhar pra janela, ele compreendeu.
No outro dia, Ronni limitou-se a um “Bom dia” como lhe exige a profissão, mas não conversou mais comigo, e foi assim que terminou nossa amizade, amizade da parte dele, diga-se de passagem, para mim era um incomodo desnecessário do acaso.
E pela primeira vez, em muito tempo, pude ficar só no ônibus como numa daquelas tomadas de cinema. Pra ser melhor só faltava chover.
Às vezes eu sentia o olhar de Ronni sobre mim, mas fiz pouco caso, antes que ele achasse que eu estava arrependido.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

A Fábula de Dorinha

Dorinha estava cansada de ser fada. Cansada daquela rotina, de ter que acordar no meio da madrugada, atravessar florestas imensas para ir ajudar pessoas que no fim das contas eram ingratas e mal agradecidas. Está certo que era esse seu destino, ajudar a todos, ser vista como a “boazinha”, a “que opera milagres”, “um ser iluminado de outro mundo”. Mas chega! Queria muito mais do que uma boa reputação, do que ser: “boazinha”. “Boazinha”, “boazinha” o caralho! Daqui pra frente não atenderia mais pedidos que chegassem depois da meia-noite, e nada de ir voando, abdicava de suas asas, coisa mais careta. Ia no seu possante novo, vermelho fogo, e também mudou seus cabelos loiros e sua face rosadinha transbordando paz.
Pintou o cabelo de violeta, pos um piercing no nariz e um vestidinho mais ousado. Chega de coisas cafonas e quadradas. Os tempos eram outros, e agora só ouvia Gnomes Rock, tocavam sempre no barzinho de garagem escondido em baixo de um super pé de cogumelo.
Dorinha foi incompreendida, foi julgada, castigada, repreendida e por último depuseram-na do cargo de fada. A gota d’água foi quando numa de suas atrapalhadas deu um par de sapatos de cristal um número maior do que a moça que estava ajudando usava, uma tal de Cinderela. Parece que depois ela andou perdendo o sapato no caminho, e o príncipe que havia dançando no baile real com ela, a procurou pelo sapato perdido. Aquela cujos sapatos caíssem com perfeição em seus pés, era a mulher da vida dele, aquela com quem dançou no baile, se casaria com ela. Acontece que sendo os sapatos um número maior, quando chegou a vez de Cinderela, o pezinho dela ficou boiando nos sapatos, já os de sua irmã postiça (uma das filhas de sua madrasta) ficou perfeito! Não deu outra, o príncipe bonachão se casou com a mulher errada e Cinderela foi infeliz para sempre.
E Dorinha? Dorinha perdeu o cargo de fada. Mas até que era bom não ter nada para fazer, passava o dia todo ouvindo Gnomes Rock, agora eles já tinham lançado um cd, sucesso em todo Reino. As letras eram boas, apoiavam a libertação de todos os seres mágicos, afinal eles tinham o direito de ser o que quisessem e se não quisessem seguir a natureza que supostamente lhes criou, não era preciso. E foi isso que Dorinha fez, se livrou do estereotipo de fada. Ainda não sabia muito bem o que seria dali para frente, mas era livre.
O Reino já não andava tão calmo e próspero, milagres e mágicas não interferiam mais com tanta freqüência a vida das pessoas, decepções e problemas se alastraram. Dorinha se sensibilizou com a situação, mas em compensação as pessoas deviam aprender a lidar com seus problemas sem a interferência de seres mágicos.
E assim os anos foram passando, cada vez mais e mais fadas, duentes e gnomos foram abdicando de seus cargos. Até que desapareceram quase todos e os que sobraram tomaram feições humanas, tornando impossível identifica-los, fazendo-se até duvidar de sua existência.
Vezenquando alguém diz que viu um. Mas normalmente não é levado em conta, diz-se que é “conto da carochinha”, mentira em outras palavras.
Dorinha e Gnomes Rock se transformaram num símbolo vanguardista para alguns e para outros, foram a desgraça do Reino inteiro.

Como se infiltra o privilégio

Antoni Maestro viu pela vitrine da loja mais fashion da cidade o sapato mais bonito que um homem poderia ter. Seria uma ousadia descabida compra-los, mas seria uma frustração ainda maior não ser o privilegiado a usá-los.
Afinal, Antoni Maestro merecia agradar seu ego. Era jovem, trabalhador, bondoso, honesto, bonito, inteligente, daqueles que jamais se deixam levar por uma paixão descabida, enfim, era um homem responsável, cumpridor de suas obrigações, mas que hoje, justamente hoje, se via no direito de ser o privilegiado a usar os sapatos mais bonitos que um homem poderia ter.
Porém o sapato deveria ser caro, estava à venda na loja mais fashion da cidade, onde tudo era moderno, uma fachada bonita e o calçamento em pedras lustrosas. Ele era um homem simples, simples e sem dinheiro suficiente para aqueles sapatos. Talvez se abdicasse de uma ou outra compra durante o mês, uma economiazinha e no fim do mês teria dinheiro suficiente. Mas bonitos do jeito que eram logo outro homem passaria na frente da vitrine e sentiria o mesmo encantamento que ele pelos sapatos, não podia correr o risco de perdê-los a um homem qualquer.
Então, averiguando a situação, entrou na loja. Um frio na espinha lhe cruzou de repente, ao que a moça, a atendente, veio em sua direção: “Precisa de ajuda Senhor?”, “Aqueles sapatos da vitrine, quanto custam?”, “Á vista são R$ 356, 00.”.
Fitava os olhos da moça ainda horrorizado com o preço, R$ 356, 00, mas isso era ainda muito mais do que aquilo que supôs que não seria capaz de pagar. Agradeceu e saiu pensativo, avaliando as vantagens e desvantagens de tal custo. Era o sapato mais bonito que um homem poderia ter, e era merecido que fosse seu, só seu, demais ninguém. Mas todo aquele dinheiro, a onde arranjaria?
Não teve jeito, ele, homem trabalhador, bondoso, honesto, bonito, inteligente, cumpridor de suas obrigações, havia se deixado levar por uma paixão descabida, estava à mercê de qualquer pensamento ligeiro, e assim se fez, iria roubar os sapatos.
Claro, um roubozinho de nada. São só sapatos afinal, e os donos da loja mais fashion da cidade não sofreriam com um rombo no orçamento de R$ 356,00 no final do mês. Era o certo, ceder a esse ato louco de luxúria. Precisa daqueles sapatos.
E na manhã seguinte, assim que a loja abriu, como quem não quer nada, aproximou-se da vitrine, distraiu a atendente, a mesma do dia anterior, e numa fração de tempo, num suspiro de deus, pegou o par de sapatos e escondeu-os rapidamente dentro da sacola que trazia. Ninguém suspeitaria de nada, era uma sacola discreta, e ele era um homem honesto.
Agradeceu e saiu pensativo, avaliando o perigo de ser descoberto. Em passos rápidos cruzou a esquina da loja, estava a salvo, tinha os sapatos mais bonitos que um homem poderia ter. Mas, uma desilusão crescia e ofegante fazia-o sofrer, fazia temer muito mais do que ser descoberto, com os olhos marejados de lágrimas desejava chegar logo em casa, e se os sapatos da vitrine não fossem o seu número?
Tinha esquecido de conferir, meu deus, e se todo esse malabarismo tivesse sido em vão? Com que cara devolveria os sapatos? Não, não, deus não podia armar isso com ele, haveria de ser seu número.
Sôfrego e tenso, na luz fraca de seu quarto, agora sozinho e longe do perigo, tirou o par de sapatos mais bonitos de dentro da sacola. O medo corrosivo de não ser seu número, precisava calçar, precisava conferir, precisava sentir o conforto que só aqueles sapatos poderiam lhe oferecer.
Antoni Maestro, tirou seus sapatos velhos e sujos, colocou meias novas, sim, um momento como esse pedia meias novas, e torcendo para que a medida de seu pé e do sapato serem a mesma, calçou-os. Uma frouxura na alma se apoderou dele, era seu número. Era o homem mais privilegiado do mundo.
Se bem que, não poderia usar esses sapatos, seus conhecidos saberiam que ele não tem dinheiro para esse tipo de compra e logo se dariam conta de que esse era o sapato roubado da loja mais fashion da cidade.
Uma ponta de arrependimento se fez, não adiantaria de nada ser o homem mais privilegiado do mundo se os outros não pudessem saber, se não vissem o quão bem aqueles sapatos lhe caíram.
Mas, em compensação não seria descoberto e ninguém, a não ser ele, usaria os sapatos mais bonitos que um homem poderia de ter. Tinha para si o privilégio que todos os homens gostariam de ter.
Ainda que não pudesse revelá-lo a ninguém.

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Espiral

Ele tava me olhando com aquela cara estranha de quem vai dizer algo, então já fui me preparando pra ouvir o que quer que fosse, mas ele não sabia muito bem o que ia me dizer, ficou parado com aquela cara, como quem procura as palavras certas, ou então não sabia como me dizer o que ia me dizer.
Mas eu fiquei ali, daquele jeito, fingindo que não sabia que ele tinha algo a me dizer. Até que sem nenhuma espera ele segurou meu braço, não disse nada, mas ficou me olhando com uma cara de espanto e eu ao ver aqueles olhos turbulentos acompanhei o seu olhar que ia direto pr’um pronto acima do horizonte. Pensei que fosse piração da minha cabeça, mas logo seu dedo indicador estendeu-se na mesma direção, confirmando o que seus olhos queriam me mostrar.
Então eu forcei a vista de um jeito cético e um nó seco me prendeu a garganta, nunca fui de ficar amedrontado, mas confesso que fiquei impressionado. E era uma espiral gigantesca feita no céu. Nas mais diversas cores, numa psicodelia juvenil inexplicável, mas eu era homem feito e sóbrio. Aquilo só podia ser obra de um anjo de deus ou do diabo.
E fiquei pasmo parado olhando pro céu, aquela infinidade de cores naquela espiral. E vi que ele ainda continuava daquele jeito. E eu fiquei calado, tentando encontrar uma razão pr’aquilo tudo, ou então dizer algo.
E quanto mais eu olhava mais alucinante era o que eu via, então coloquei as mãos nos bolsos da calça, baixei o olhar pra terra seca e mordi meu lábio inferior. Louco eu não era.
Foi então que distraído desse jeito senti sua mão fria de novo a me segurar, meu coração acelerou-se com a idéia de que a aparição pudesse ter se transmudado pra outra coisa. E então acompanhei de novo seus olhos turbulentos, o dedo indicador não se faz mais necessário, de súbito avistei o céu, e nada mais havia ali. E eu homem feito e sóbrio, duvidei da minha lucidez.
E ele continuou me olhando com aquela cara estranha de quem vai dizer algo, e eu pensei que dessa vez ia mesmo dizer algo e fiquei olhando pra ele a espera de quê dissesse qualquer coisa, mas ele não sabia muito bem o que ia me dizer.
E dessa vez eu o compreendia.

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Egos Em Agonia

Não Precisa Fazer Sentido
-É que assim, tu pensa que é assim, mas depois não é nada disso...
-Hm, imagino.

Pensamentos Áridos

Grita, expulsa teus demônios.
Arranha a carne crua e má que te oprime, esquece o gosto insosso do teu sangue seco que se criou nas feridas.
Grita, como se já não houvesse outra saída além de gritar, como se estourando os tímpanos alheios os problemas sumissem.
É preciso beijar a terra, esfregar esse pedaço do universo na tua pele, fundir-se ao pó, ao barro que te originou.
Já não importa se o branco dos teus olhos ficarem vermelhos, se a raiva se sobrepuser à razão, és um animal sem tempo para sutilezas. Foi ferido onde dói, mais: arrancaram de ti tuas certezas, arrancaram de ti a muralha de cinismo com que te defendia.
Grita! Grita! Já não a mais porque suportar em silêncio, se o vermelho dos olhos dizem tudo.
Expulsa esses demônios, expulsa e depois aprecie tua alma leve. Na paz exarcebada que se apodera do teu espírito conflituoso. Um espírito pronto pra ser livre, um animal ferido.
Grita, junte-se ao chão fértil que te deu a vida, fure os tímpanos alheios. O vermelho dos olhos já dizem tudo.

Vontade De Voltar Atrás

*Escrito por T. Vicente.

Era tarde e seu plantão já acabara, não havia mais ônibus naquele horário, ligou e chamou um táxi.-Boa noite, pra onde senhora ?
-Av. Juares de Medeiros 71. Sabe onde fica?
-Sei sim. Está tarde mesmo pra ir de ônibus, né? Acho que nem tem mais há essa hora...
-Meu serviço faz isso comigo, chego tarde todos os dias.
-Seu marido deve chiar, né?
-Chiou sim, mas nos separamos por causa disso. Ele odiava que eu chegasse tarde, então me disse pra escolher entre ele e o trabalho, eu acabei escolhendo o trabalho.
-Minha mulher trabalha fora também, mas chega cedo. Porém eu tenho que fazer alguns dias à noite pra poder suprir nossas necessidades, a vida tá difícil. Pronto, chegamos. R$ 23,50.
-Se eu me atrasar mais do que 10 dias durante o mês no meu plantão, vou deixar o meu salário com o Sr.
-Espero que sim, opa! Que não. Uma boa noite Senhora.
-Boa noite...
O elevador parecia uma caixa de concreto que nunca chegaria ao seu andar, o sono a consumia. Seus olhos já não a obedeciam e a única coisa que ela queria era se jogar na cama macia e bagunçada, pois não havia a arrumado quando saira atrasada.
Ao entrar no apartamento, ela arma o despertador para que a acorde às 6 horas da manhã, e sem ao menos fazer a higiene, deita-se em sua cama. O mundo pareceu parar e o colchão abraçava-lhe de uma forma que ela nunca mais sairia dali. Ela escutou um barulho , se assustou, levantou da cama. Ele disse:
-Volte pra cama, querida.
E ela disse:
-Vou ver o que é e vou aproveitar para escovar os dentes. Era só a torneira que estava pingando e a água escorria pela lajota, molhando o vaso de plantas que ficava ao lado do sanitário. Quando olhou para trás, lá estava ele:
- Querida, porque não larga esse serviço e fica em casa por uns tempos? Está deixando você tão cansada, nos finais de semana você só quer dormir. Isso quando não está de plantão. Ela respondeu:
-É o que eu gosto de fazer, querido. E já conversamos sobre isso diversas vezes. Ela volta pra cama. As cobertas estão quentes, como se alguém estivesse deitado nela por horas. Ela ouve outro barulho, e comenta:
-Assim eu não consigo dormir. Preciso acordar cedo amanhã e já é quase duas horas, não é tu que trabalha o dia todo, volta pra cá e dorme também.
Ela levanta angustiada, liga a teve, ela fala alto no meio da madrugada:
-Se tu não gosta do meu trabalho vai embora, me deixa com ele, eu gosto muito. Muito mais dele do que de ti, já faz tempo que eu estou para te dizer isso, goste ou não! Ele responde:
-Se amanhã tu acordar e eu não estiver mais em casa não fique surpresa. Então, ela retruca:
-Tu não faria isso. Tu não tem coragem de me deixar, tu me ama. Vamos deitar de uma vez. O relógio a acorda, são seis da manhã. Ela acorda com uma sede e com um gosto na boca de quem não escovou os dentes. Ainda com a roupa do trabalho, ela se levanta e vai tomar um banho. A sua cama está vazia, mas ela não nota, pois já faz tempo que acorda sozinha.

terça-feira, 1 de julho de 2008

Pássaro Manso

Tava cansado de todo esse lixo, estar ali ou não estar, tanto faz, era sempre como se não estivesse. Queria mesmo era que o azul do céu ficasse sempre suspenso sobre sua cabeça, mas não, malditas nuvens rancorosas que lhe faziam sombra. Maldito dia que nunca acabava maldito sapato que lhe apertava os dedos maldito dia que resolveu ganhar dinheiro. Então era isso, essa gravata, essa mulher que se diz sua secretária, esses papéis que devia ler, concordar ou não e assinar, as transações do mercado, o rival da empresa, tanto faz, tanto faz, era como se não estivesse ali.
Malditas nuvens rancorosas, argh, nem ao menos via o céu. Mas sabia que estava lá, sabia que o certo era sair e deixar tudo assim, no caos, o certo era abrir a janela e voar como pássaro, ahhh um pássaro no céu manso e sozinho. Pensava nisso enquanto a secretária, sempre ela, lhe avisava que a reunião das 15 horas foi adiada, pouco importa, se tudo que queria era ser um pássaro.
O mundo moderno, os homens modernos, a sociedade moderno, asco, nojo a realidade que lhe cercava. Lixo, lixo, estava cansado dessa luta de classes, cansado de estar na burguesia, cansado de ser qualquer coisa, mas não era socialista ou comunista ou anarquista, ou qualquer outra política de esquerda, não. Amava seu dinheiro, apenas estava cansado de ter que ser algo, cansado do fardo da liberdade. Talvez estivesse escolhendo errado, argh, sim, talvez fosse uma escolha errada.
Mas dali ia pra casa, o alívio de poder tirar esses malditos sapatos, de pisar no carpete com os pés descalços, e estaria livre dessa secretária, não era uma má pessoa, até que simpatizava com seu sorriso, mas ela nunca sorria. Também pudera, o clima da empresa era sempre terrível. Talvez devesse fugir com a secretária, coitada, não merece viver num ambiente daqueles, devia fugir com ela ou então convidar ela para ser pássaro. Bem mais bonito dois pássaros no céu manso do que um só. Mas que imagem teria a secretária de mim? Sim, eu sempre ocupado, sempre nervoso, sempre estressado, sempre como se estivesse ausente, sempre me adaptando e já quase sendo parte de todo aquele lixo.
Talvez devesse sorrir amanhã para ela, pra não parecer tão frio quando e tão estranho quando a chamasse em sua sala e lhe dissesse “Senhora Elizete, quer ser pássaro comigo? Sim, isso mesmo, pássaro. Não me olhe com essa cara, eu sei que está tão cansada quanto eu desse lixo, e que por isso pouco sorri. Digo mais, gosto do seu sorriso. Já imaginou que bonito nós dois num céu manso e azul? Não, não estou ficando louco, já disse para não me olhar com essa cara. E então, o que me diz?” Se ela aceitasse era só abrir a janela, mas corria o risco dela não entender nada e começar a gritar impropérios a sua pessoa. É, talvez fosse melhor voar sozinho, pensava enquanto folheava o jornal sem ler matéria alguma, apenas indo em direção ao horóscopo. Não que acreditasse nisso, longe disso, mas era mortal, não podia deixar de ler. “Dia ruim nos negócios”, oras, todos os dias são ruins no negócio, aquele lixo, aquela gravata insuportável, o cargo das escolhas. Mas na verdade tanto fazia, era como se não estivesse ali.
Mas talvez se Elizete aceitasse o convite... Maldita Elizete que tinha o direito de recusar o seu convite, devia mesmo ficar penando naquele lugar horroroso, era tão simples, só dizer sim. Pensava nisso ainda minutos antes de dormir, isso misturado ao dia ruim nos negócios e de na verdade todos os dias serem ruins o cansaço o céu manso, pássaro sozinho, será que sorria amanhã para Elizete?
Maldito fardo das escolhas, o sapato apertado de amanhã, arghh, malditas nuvens rancorosas.

quinta-feira, 26 de junho de 2008

O Coração de Pedra e o Sorvete

O homem do coração de pedra atravessou a rua para ir comprar um sorvete. Sim, porque homens com o coração de pedra gostam de sorvete, gostam também de ver as crianças que sempre estão próximas da sorveteria. Ele as olha minuciosamente, feição por feição, e tem a legítima certeza de que no futuro essa alegria inocente não se fará mais presente, pois seus corações também correm o risco ácido de se transformarem em pedra.
Não era um mal de todo ruim, já não deixava lágrimas caírem em vão, nem se penalizava com as dores do mundo, os humanos têm o que merecem. De fato, deixou aquele brilho que tinha porque se fez necessário, a vida o deixou sempre na defensiva. Com algumas simples frases destruía os sonhos de qualquer um, mas não eram de forma alguma frases mentirosas, era a mais pura verdade. E a verdade deixa as pessoas assim, com o coração de pedra e o olhar amargurado.
O homem de coração de pedra, de olhar amargurado e que gosta de sorvete, nunca amou ninguém. Na verdade ele sabe que o amor não existe, joga com isso com a naturalidade que lhe pertence. E também é egoísta, mas na verdade esse egoísmo é necessário, porque só os fortes sobrevivem, é a lei da natureza. Os fracos caem, morrem. Então ele preservaria sua espécie, preservaria seu coração, transmitiria o legado de sua verdade.
Era um homem perfeito, e não podia esperar menos que isso dos outros. Foi por isso que se frustrou ao perceber que a bola de sorvete de morango era menor que a bola de sorvete de chocolate. Esses sorveteiros estão sempre tentando passar a perna em seus fregueses, mas mesmo assim continuou tomando suas duas bolas de sorvete sentado de frente a praça, tendo as crianças felizes a seu redor.
E até sorriu da travessura de uma delas, mas não se enganem pensando que daquele coração inóspito sairia algum tipo de afeto. Era apenas delicadeza, assim como o poeta, por delicadeza também já perdeu a vida.
Fazia um dia bonito, o céu azul, a grama verde, ele sentado como alguém comum tomando sorvete. O sol derretendo o sorvete, aquecendo-lhe o corpo, suavizando a crueza de sua face, quem o viria até o julgaria feliz. Mas não, seu coração de pedra, os pensamentos altos, a defensiva.
O homem termina o seu sorvete, ajeita o paletó, paga o sorveteiro, faz um leve afago na cabeça de uma das crianças de pele morena, e atravessa a rua. Satisfeito com o sorvete, que é sempre mais fácil agradar o estômago do que qualquer inquietação, volta-se a frieza de sua vida. E pensa, numa fração de segundos, que a bola de sorvete de morango ainda era menor que a de chocolate.

domingo, 22 de junho de 2008

Feito Na Hora, Como Pastel!

Só se ouvia o vento. A janela com panos, segurando os vidros para que não atrapalha-se seus pensamento bons, que eram tão raros naquela noite de angustia. Ela já não agüentava mais tanta chuva e não conseguia terminar seu trabalho que já estava acumulado há horas, e a data de entrega logo chegaria. Justo, pois era tão fácil publicar um conto em 24 horas, é escrever ou morrer!!!
Melhora a temperatura e seus pés com duas meias, já não estão tão gelados e seus dedos duros já se acolhem em meio a luvas mais frescas.
Portanto a noite já caia e pela manhã a entrega era esperada, se ouve uma batida na porta. Quem seria naquele momento tão importuno e molhado?
Mergulhou em seus pensamentos até chegar à porta, quando abriu, sentiu que sua sorte virava. Eram apenas meninos que precisavam ligar para suas mamães, pois sua rua estava cheia de água e esperariam mais algumas horas pra voltar pra casa, fizeram suas ligações e foram de volta pra rua.
Sua mente, que já não estava associando o real do imaginário, acendeu-se. E como num passe de mágica tudo veio a sua cabeça. Como crianças ajudam uma pessoa pobre de pensamentos a ter idéias mirabolantes...
Tudo começou com um grito: PASSAAAAAAAA
-Chuta logo, me dá aqui, tenho que ir embora minha mãe me chama e preciso jantar.
-Deixa ele ir! Vamos ficar aqui conversando, moramos mais longe e nosso ônibus só passa daqui a 2 horas.
Eles ficam ali, todos mentindo um para o outro. Meninas passam, todas cheias de roupas e seus pensamentos só lhe fazem dizer, que saudade do verão!
As roupas grossas fazem com que todos fiquem uns dois quilos mais pesados, porém todos elegantemente mal vestidos. A chuva parece eminente e começa forte, eles se abrigam num canto do parque, onde brigavam por um espaço em baixo da marquise. Carros de todas as cores passavam com pressa e em poucos minutos já levantavam ondas na rua. O frio se acentua e o corpo deles se encolhe como plástico derretido.
Durante algumas horas eles pensam em ir assim mesmo e molhar seus cabelos, mas a chuva era tão forte e o vento cada vez mais rápido e cortante.
Logo a noite caiu, e já não havia modo de irem embora. Foram até uma loja de televisores e viram na reportagem que suas ruas estavam em baixo d’água e que carro nenhum, nem ao menos ônibus, estava indo pra lá.
Avistaram uma casa de madeira, linda. E muito rústica, onde só uma luz estava acessa, resolveram pedir um favor ao dono da casa.
Bateram na porta. Uns pensaram em correr, mas o mais velho deles ficou ali, parado. E todos ficaram pra ver o que ele iria dizer ao Sr. daquela casa tão velha e bonita.
Mas todos ficaram surpresos quando viram uma linda mulher abrir a porta, com cara de zangada, mas logo mudou sua fisionomia.
O mais velho disse: podemos ligar para nossas mamães?
Ela deixou. E disse: Sejam breves, ok? Estou escrevendo e preciso entregar isso amanhã de manhã. Meu filho acabou de dormir não façam barulho, ele jogou bola a tarde toda na praça aqui perto. De repente vocês o conhecem!Ele levou a bola dele pra praça...
Menino de ouro, merece dormir. Usem esse telefone e podem sair pela porta que entraram, vocês me trouxeram uma idéia legal.


Escrito por T. Vicente, um ótimo conto.
=]

Cinza


"Na santa paz de Deus, no mais perfeito caos..."

sexta-feira, 20 de junho de 2008

Poemas de Um Amigo

Ao que, ele se revela um grande poeta: Luiz Godard.



Se ela vier por aqui

Se ela vier por aqui,
Diga-lhe que estou bem.
Apesar de nessa cidade vazia
Nao conhecer quase ninguem.
Apesar das noites interminaveis,
Das sombras nas paredes sujas.
Diga-lhe que estou bem
Mesmo camuflado nas ruas.
Se ela vier por aqui,
Diga-lhe que estou sorrindo.
Apesar dos olhos molhados
afirmarem que estou mentindo.
Apesar de tantas noites vazias,
Perto de tantos estranhos.
Diga-lhe que estou bem
Mesmo sem seus olhos castanhos.
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Clara

Clareou o dia, Clara.
Com sua face nua.
Clarearam os olhos, Clara,
com sua vista crua.
Clarearam as aguas claras
e mais claras ficaram ...
e algo mais caras
claro, também se tornaram.

E mais caras surgiram
Nas noites já claras.
Porém Clara, claro, eles nao a conhececiam.
Moeda velha de duas caras.
Quando na confusao, Clara,
a noite ficou um tanto escura.
E já nâo se enxergava a cara,
que de tâo cara já nos parecia dura
E entao claro,
clareou a noite e fez-se dia,
e já nao eram caras nem carros,
era Clara, que clareando, para casa se ia.
(Sou tua fã, baby...)
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Às flores que nao brotaram
Com as mãos no bolso,
com os pés descalços,
tanto gritei que mal ouço,
o ruido dos teus passos.
A desilusão como troféu...
O vazio da misercórdia...
O gosto amargo do mel...
Os pensamentos em custódia.
Com a mente distante
e as pernas cansadas.
Pregado no instante
com as verdades cruzadas
maldigo o teu nome,
grito ódio ao vazio.
O vazio de quem tem fome
ao leito de um seco rio.

Às flores que não brotaram
adeus... ao dia tão frio.
Aos que do inferno não me salvaram,
os digo : eu prefiro esse vazio!
Com as mãos no bolso,
e o coração aberto.
Um passo lento, pereçoso,
num longo caminho incerto.

Sexta-feira, 20 de junho de 2008.

Tava por escrever, de bobeira em casa, livros sobre a mesa, resto de pizza no forno.
Tava por escrever, tem coisas que vem me atormentando aqui dentro. É, aqui calado no peito e também na cabeça. Não há um só dia que não pense nisso, o que fazer com isso?
E o problema é que tudo me parece uma indireta, como se o mundo conspirasse contra mim me forçando a dar uma resposta, uma resposta agora, hoje mesmo. Por que a vida não pode esperar, eu não posso esperar.
Tava por escrever e comecei várias vezes, queria um conto. Porque com poemas não sou muito boa, sim, um conto! Deus, preciso escrever um conto sobre meu tempo. O tempo que perdi, que ficou de bobeira em casa, assim como eu hoje. E tudo que eu começava era ruim, raso, pequeno, estúpido, clichê. Então optei por uma música suave, talvez ajudasse, porque eu precisava escrever um conto sobre o tempo que perdi, sobre a conspiração do mundo, sobre a resposta que o mundo espera de mim.
Então acabou sendo Engenheiros do Hawaii, Humberto com suas letras e tudo que elas nos fazem sentir. Tava de bobeira em casa, podia ler um livro, mas não. Sentei na frente do computador querendo escrever. Mas tem dias que não adianta. A inspiração não vem, as palavras não dizem nada. Além do que eu nem tenho o que dizer, sempre caio em contradição.
Caio, me lembrei de Caio Fernando Abreu. De seus contos, de sua desenvoltura com as palavras, e me vi ridícula, pequena. O que será que ele me diria sobre isso que me atormenta? É muito mais que simbólico, é uma luta. Uma prova de amor a humanidade, ou simplesmente egoísmo, quem sabe medo? Mas eu já disse que quero mudar, já disse que assim não dá mais pra ser. E depois tocou Piano Bar, senti vontade de desligar a luz e deitar na cama, fechar os olhos e deixar a música invadir o ambiente. Mas pra quê?
Pra me sentir pior? Não, chega, cansei. Decidi mudar porque a vida é nada. Mas essa afirmação sempre me choca, por que isso agora? Vive Catiane, vive.
Quem sabe desiste desse conto, vai ler um livro e aquieta esse desvario.

Talvez seja desespero, estão todos desesperos.

terça-feira, 10 de junho de 2008

Manifesto ao Silêncio...

Roda-mundo-roda-gigante-roda-moinho-roda-pião-o-tempo-rodou-num-instante-na-roda-do-meu-coração...

By, Chico

sexta-feira, 6 de junho de 2008

De Oscar Wilde, “DE PROFUNDIS”

“É preciso que eu faça com que tudo aquilo que me aconteceu tenha acontecido para o meu próprio bem. Não há um só ato que avilte o corpo que eu não deva transformar numa forma de espiritualização da alma...E se a vida é para mim um problema-como certamente acontece-eu também não deixo de ser um problema para ela. Minha única preocupação é minha atitude mental diante da vida como um todo.
É preciso que eu aprenda a ser feliz. Antigamente eu sabia, ou pensava sabe-lo, por instinto. Antigamente era sempre primavera no meu coração. Meu temperamento era sempre sinônimo de alegria, eu enchia a minha vida de prazer até a borda, como quem enche o seu copo de vinho até a borda.
Desejo viver para poder explorar o que é para mim nada menos do que um mundo novo. Quer saber qual é esse novo mundo? Creio que é capaz de adivinhá-lo: é aquele em que tenho vivido o sofrimento, e tudo aquilo que ele pode ensinar, é o meu mundo novo. Depois de terríveis lutas e dificuldades, consegui, durante estes últimos anos, entender algumas das lições que se escondem no âmago da dor.
Pois o segredo da vida é o sofrimento. É ele que se oculta atrás de todas as coisas..."

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Os Homens de Carne e Osso

Lá fora, os homens feitos de carne e osso trabalham arduamente. Homens com uniformes sujos e desengonçados, que escondem das vista a imperfeição da carne e dos ossos. Desbloqueiam as ruas a base de suor, sangue, força e cansaço. Desbloqueiam a rua lá fora, enquanto eu tento desbloquear as vias da minha vida aqui dentro. Suor, sangue, força e cansaço, impregnados em um corpo de carne e osso.
Aqui dentro quando penso na vida, não a posso achar mais injusta. Lá fora, os homens que trabalham na rua, quando pensam na vida, tão pouco a podem ver menos injusta. O que temos em comum são todas as conveniências que calejam a alma, e o fato de ambos sermos de carne e osso.
É conveniente a eles que façam barulho, que tragam máquinas enormes, das quais não sei o nome, e aos poucos, desbloqueiem a rua. E depois dessa rua, muitas outras ainda precisarão sofrer as mesmas providências. Ao que, sendo o mundo do jeito que é, e tendo eu e os homens lá fora essa mesma percepção, irão receber pelas gotas de seu suor, sangue, força e cansaço muito menos do que mereciam. Mas ainda assim, quase como uma ironia, sentir-se-ão satisfeitos, por recebê-la.
Aqui dentro, incomodado pelo barulho dos homens lá fora e pelo barulho de meus pensamentos, tenho na boca a amarga sensação do suor, do sangue, da força e do cansaço. Atenuado pelo desconforto que a carne e os ossos produzem. Viver é exaustivo.
Abro a janela e vejo-os nitidamente, são tão reais quanto eu. Lá fora, vejo a origem do barulho e expressões rudes incumbidas pela força utilizada. Fecho a janela, e ao contrário do que supunha, não vi em parte alguma a origem dessa inquietação que me agonia, sendo que esta também é tão real quanto eu ou os homens lá fora. Calar-se-ão os barulhos lá fora e, entretanto aqui dentro os barulhos permanecerão insistentemente.
Os homens de carne e ossos regressarão as suas casas, a rua já estará desbloqueada. Mas meu suor, meu sangue, minha força e meu cansaço não serão o suficiente para desbloquear as vias de minha vida.
Viver é exaustivo

terça-feira, 3 de junho de 2008

Soslaio Para Um Sol

o sol dos
olhos
saltam
pela face
em busca
de terras
que possam
iluminar.
saltam
em sutis movimentos
chamados
olhar.

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Para Raquel: O Caso do Casaco.

Não é que sejamos malucas ou coisa do tipo. Mas tem certas coisas que são evidentes, e certas coisas também não fazem questão de serem discretas. Não é uma convicção errônea, está baseado em fatos. Uma grande instituição conspira contra nós, eles querem nos destruir.
A sorte é que somos inteligentes e sempre nos saímos bem das armações. Exceto a última, que além de tudo foi a gota d'água. Roubaram o casaco da Raquel.
O casaco, e o broche que estava no casaco.Pode ter sido os ets, há muito que eles invadem nossas vidas. Mas eles não são os únicos suspeitos, existe o Almodóvar, claro..o Almodóvar com aquela cara de intelectual que rouba casacos...E tem o Dondé, ele tem uma namorada, e o dia dos namorados está chegando ai. E o sor Wagner? Háá, ele com aquele charme Uruguaio não nos engana, olhou pra mim de uma forma muito estranha quando fui procurar o casaco da Raquel. Talvez ele seja o respectivo ladrão (a mando de uma grande instituição), ou simplismente achou estranho eu invadir a aula dele sem dar a menor explicação...
Bem, além de tudo tem aquele colega estranho da aula de Fotografia. Não nos causa simpatia, tem um olhar estranho, maléfico.
Não, nós não temos mania de perseguição. Os fatos são evidentes.
Pelo menos ainda existe a chance de encontrarmos o casaco, suspeito que eles podem ter colocado o casaco e o broche em baixo de um cone. Porque os cones servem como teletransportadores, vc coloca algo em baixo dele aqui no Brasil e ele pode aparecer na Suécia, por exemplo.
Mas esse é um mistério que descobriremos, porque nenhum complô pode nos deter.Repito não somos malucas, nem maníacas, nem temos mania de perseguição. Os fatos são evidentes...
O mundo um dia vai descobrir que estamos certas, por quê não há mal que perdure pra sempre.
Os malfeitores, a instuição e os ets: um dia isso tem que acabar.

Já perceberam que no meio da palavra Poeta tem um et? Não somos maníacas, certas coisas não fazem questão de serem discretas...

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Objeto Estranho...

A faca introduzida ao peito fez-se necessário. A falta da faca introduzida no peito causava um vazio, um tormento insuportável, maior do que o objeto estranho cravado em seu corpo.
A faca arraizou-se tanto e já era tão bem-vinda que acabou por fazer parte de seu semblante. Já nem temia uma possível infecção, a faca já não era mais um objeto estranho.
E todos achavam graça daquele homem cujo peito nunca parava de sangrar, e espantavam-se mais ainda ao se deparar com aquele metal atravessando a camisa, em direção ao peito.
Um dia, num mal jeito qualquer, sentiu que a faca atingiu uma profundidade maior, rasgando-lhe as paredes da alma, mas logo o desconforto da dor foi substituído por suaves pensamentos de que cada vez mais a faca era parte dele. Ele que achava temível demais sobreviver com o vazio que a ausência da faca lhe causaria.
O peito sangrava. Dia e noite. O peito sangrava.
E logo seu sangue fez-se pouco, fez-se um homem fisicamente fraco. Mas quanto mais o corpo sofria mais a alma se enrijecia. Sentia-se quase feliz, fato raro em todos os seus anos vividos.
A faca introduzida no peito fez-se necessário.
E sabia que seria esse seu fim, sabia que morreria, sabia que seu sangue se esvairia, que sua força se perderia. Mas sentia-se tão leve, que a temeridade tornou-se insignificante.
Que venham as dores, as febres incandescentes, os desvarios. Definharia aos poucos, definharia sem jamais ousar tirar a faca do peito.
Iria morrer, morreria de um mal necessário, morreria de amor.

sexta-feira, 9 de maio de 2008

O Segredo De Cada Dia

Não havia dúvidas. O que estava enrolado com aqueles panos vermelhos e sujos era um corpo, um cadáver. Que na certa teve uma morte lenta e dolorosa, e tudo isso porque sabia demais. Estava no lugar errado na hora errada. E eis o que acontece a pessoas azaradas, acabam enroladas em panos vermelhos e são jogadas de qualquer jeito em porta-malas de carros.
Depois disso não se sabe mais nada. Pode ser que sejam enterradas no quintal do malfeitor, ou jogadas em alto mar. E há quem diga ainda que a perversidade é tanta que são capazes de picar o corpo em pedacinhos e fazer dele linguiça, e ainda com mais sofisticação há quem faça sabão.
Por isso me abstenho a qualquer coisa que veja ou ouça que me pareça suspeito. Qualquer indiscrição pode custar a minha vida.
Ontem mesmo, estava na fila do banco quando ouvi os dois senhores a minha frente (vestidos com muita destinção, diga-se de passagem) dizendo: "Dentro de 5 minutos a casa cai, você pega a senhora de azul e eu o homem calvo a direita." Não tive dúvidas, um assalto se faria dentro de instantes e estavam escolhendo os reféns do crime. Virei-me sinuosamente em direção a porta giratória e sai o mais rápido possível. Na manhã seguinte, em quanto saboreava meu café, li nas páginas policiais as notícias do assalto.
Nunca comentei o acontecido com ninguém, assim como não comento os corpos que vejo em porta-malas, as doses de veneno postas meticulosamente em copos de bebidas, as casas saqueadas em plena luz do dia, os tiros certeiros, os papéis levemente falsificados.
É assim que me mantenho vivo, cego as verdades.
Nestes meus 17 anos de ofício como delegado, a justiça pode muitas vezes não ter sido feita, mas que justiça haveria de ter na morte de uma pessoa inocente?
Não sinto culpa de ocultar os fatos, tenho certeza de que o que vi hoje enrolado no porta-malas do carro, em panos vermelhos era um cadáver. E tudo isso porque sabia.

sexta-feira, 25 de abril de 2008

O Mundo É Grande...

O mundo é grande e expressivo,
E eu queria apenas me deitar na grama
E olhar o céu.

Queria que o azul do céu me inundasse,
Me arrastasse,
Me fizesse esquecer a amargura do peito.

Queria apenas a ingenuidade do olhar,
Sem nada mais em que pensar a não ser
Em como o mundo é grande!

E me ver pasma diante a imensidão.
E depois de embriagar os olhos com o azul,
Fechá-los.

Mante-los previamente fechados.

E não sentir mais nada além do ar entrando em meus pulmões,
E uma vontade mordaz de permanecer assim,
Sentindo prazer de existir.

De dizer sim a vida a cores,
De dizer sim a arte de sobreviver.
Porque o mundo é grande,
É grande e expressivo.

terça-feira, 1 de abril de 2008

Nova Casa


"Amar é mudar a alma de casa."

sexta-feira, 28 de março de 2008

O Branco

É desumana a força com que os humanos vivem
Nas ruas e corredores,
Calçadas e interiores vazios.
É desumana a força com que se olham,
A hostilidade com que se tratam,
A frieza com que se abraçam.
É desumano até a sombra na parede,
A tinta descascada do esmalte nas unhas.
Mas nenhuma lágrima se fará visível,
É também desumano a fraqueza com os humanos vivem.

sábado, 22 de março de 2008

Hoje

Diz-se que o céu não está nublado,
Está totalmente amargurado.

sexta-feira, 21 de março de 2008

Se Essa Rua Fosse Minha...

Atravessava a rua em passos largos, em um ligeiro tom de preocupação.
Os braços soltos, num ritmo frenético.
Atravessava a rua em passos largos.
Esperou o carro cruzar a rua, o carro que vinha em alta velocidade.
Talvez esse seja seu grande remorso, se tivesse atravessado na frente do carro agora não estaria tendo essas indagações e tão pouco outros problemas na vida.
De fato, talvez não tivesse vida. Ou tivesse outra vida, a que vem após a morte, se esta existisse.
Mas talvez tivesse apenas fraturas leves, por um descuido da sorte. E ainda teria que suportar as pessoas lhe dizendo para ser mais atencioso, e olhar para os dois lados da rua antes de atravessá-la.
Mas talvez algo muito bom acontecesse dentro de minutos, e se contentaria por ter se permitido viver isso. Talvez fosse um homem mais feliz, ou ao menos um homem com um motivo para atravessar a rua pela faixa de pedestres.
Mas ainda assim tinha medo, talvez o motivo surgisse e ele não fosse capaz de perceber, talvez nunca passasse de um infeliz, um infeliz com remorso.
Atravessava a rua em passos largos.
Lá vem outro carro em alta velocidade.

Tango De Uma Nota Só

-Estás Bien?
Olheio de surpresa, se havia algo que não esperava era que ele sentisse por mim a menor preocupação. Disse por conveniência, por costume.
"Estás Bien?", se tivessemos um grau de proximidade soaria como se realmente estivesse preocupado comigo, disse com um tom de voz que soou desejável que de fato nos conhecessemos.
O certo era que eu estava bem, não de todo bem, mas ainda assim bem. Bem o suficiente para acreditar em alguns sonhos antigos.
Mas aquele "Estás Bien?" calou muito mais fundo do que de costume, talvez o charme que há no sotaque espanhol tenha ajudado.
Sim, era argentino, e talvez por isso junto com esse "estás bien?" eu tenha sentido parte do drama de tangos argentinos. E logo meus olhos ficaram úmidos, talvez eu não estivesse mais bem.
Senti que aos poucos enrubescia, e ele me olhava calmamente, esperava que eu dissesse algo. Já se faziam segundos de silêncio e talvez ele repetisse a pergunta, por achar que eu não o teria entendido.
Só precisava dizer "sim", num tom de agradecimento. Escondendo o certo constrangimento que sua pergunta me causara.
Mas não fui capaz de dizer nada, sorri com os olhos úmidos. E ele parece ter me compreendido, como se também ouvisse o mesmo tango que eu.

terça-feira, 4 de março de 2008