sexta-feira, 30 de maio de 2008

Objeto Estranho...

A faca introduzida ao peito fez-se necessário. A falta da faca introduzida no peito causava um vazio, um tormento insuportável, maior do que o objeto estranho cravado em seu corpo.
A faca arraizou-se tanto e já era tão bem-vinda que acabou por fazer parte de seu semblante. Já nem temia uma possível infecção, a faca já não era mais um objeto estranho.
E todos achavam graça daquele homem cujo peito nunca parava de sangrar, e espantavam-se mais ainda ao se deparar com aquele metal atravessando a camisa, em direção ao peito.
Um dia, num mal jeito qualquer, sentiu que a faca atingiu uma profundidade maior, rasgando-lhe as paredes da alma, mas logo o desconforto da dor foi substituído por suaves pensamentos de que cada vez mais a faca era parte dele. Ele que achava temível demais sobreviver com o vazio que a ausência da faca lhe causaria.
O peito sangrava. Dia e noite. O peito sangrava.
E logo seu sangue fez-se pouco, fez-se um homem fisicamente fraco. Mas quanto mais o corpo sofria mais a alma se enrijecia. Sentia-se quase feliz, fato raro em todos os seus anos vividos.
A faca introduzida no peito fez-se necessário.
E sabia que seria esse seu fim, sabia que morreria, sabia que seu sangue se esvairia, que sua força se perderia. Mas sentia-se tão leve, que a temeridade tornou-se insignificante.
Que venham as dores, as febres incandescentes, os desvarios. Definharia aos poucos, definharia sem jamais ousar tirar a faca do peito.
Iria morrer, morreria de um mal necessário, morreria de amor.

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