quinta-feira, 26 de junho de 2008

O Coração de Pedra e o Sorvete

O homem do coração de pedra atravessou a rua para ir comprar um sorvete. Sim, porque homens com o coração de pedra gostam de sorvete, gostam também de ver as crianças que sempre estão próximas da sorveteria. Ele as olha minuciosamente, feição por feição, e tem a legítima certeza de que no futuro essa alegria inocente não se fará mais presente, pois seus corações também correm o risco ácido de se transformarem em pedra.
Não era um mal de todo ruim, já não deixava lágrimas caírem em vão, nem se penalizava com as dores do mundo, os humanos têm o que merecem. De fato, deixou aquele brilho que tinha porque se fez necessário, a vida o deixou sempre na defensiva. Com algumas simples frases destruía os sonhos de qualquer um, mas não eram de forma alguma frases mentirosas, era a mais pura verdade. E a verdade deixa as pessoas assim, com o coração de pedra e o olhar amargurado.
O homem de coração de pedra, de olhar amargurado e que gosta de sorvete, nunca amou ninguém. Na verdade ele sabe que o amor não existe, joga com isso com a naturalidade que lhe pertence. E também é egoísta, mas na verdade esse egoísmo é necessário, porque só os fortes sobrevivem, é a lei da natureza. Os fracos caem, morrem. Então ele preservaria sua espécie, preservaria seu coração, transmitiria o legado de sua verdade.
Era um homem perfeito, e não podia esperar menos que isso dos outros. Foi por isso que se frustrou ao perceber que a bola de sorvete de morango era menor que a bola de sorvete de chocolate. Esses sorveteiros estão sempre tentando passar a perna em seus fregueses, mas mesmo assim continuou tomando suas duas bolas de sorvete sentado de frente a praça, tendo as crianças felizes a seu redor.
E até sorriu da travessura de uma delas, mas não se enganem pensando que daquele coração inóspito sairia algum tipo de afeto. Era apenas delicadeza, assim como o poeta, por delicadeza também já perdeu a vida.
Fazia um dia bonito, o céu azul, a grama verde, ele sentado como alguém comum tomando sorvete. O sol derretendo o sorvete, aquecendo-lhe o corpo, suavizando a crueza de sua face, quem o viria até o julgaria feliz. Mas não, seu coração de pedra, os pensamentos altos, a defensiva.
O homem termina o seu sorvete, ajeita o paletó, paga o sorveteiro, faz um leve afago na cabeça de uma das crianças de pele morena, e atravessa a rua. Satisfeito com o sorvete, que é sempre mais fácil agradar o estômago do que qualquer inquietação, volta-se a frieza de sua vida. E pensa, numa fração de segundos, que a bola de sorvete de morango ainda era menor que a de chocolate.

Nenhum comentário: