quinta-feira, 5 de junho de 2008

Os Homens de Carne e Osso

Lá fora, os homens feitos de carne e osso trabalham arduamente. Homens com uniformes sujos e desengonçados, que escondem das vista a imperfeição da carne e dos ossos. Desbloqueiam as ruas a base de suor, sangue, força e cansaço. Desbloqueiam a rua lá fora, enquanto eu tento desbloquear as vias da minha vida aqui dentro. Suor, sangue, força e cansaço, impregnados em um corpo de carne e osso.
Aqui dentro quando penso na vida, não a posso achar mais injusta. Lá fora, os homens que trabalham na rua, quando pensam na vida, tão pouco a podem ver menos injusta. O que temos em comum são todas as conveniências que calejam a alma, e o fato de ambos sermos de carne e osso.
É conveniente a eles que façam barulho, que tragam máquinas enormes, das quais não sei o nome, e aos poucos, desbloqueiem a rua. E depois dessa rua, muitas outras ainda precisarão sofrer as mesmas providências. Ao que, sendo o mundo do jeito que é, e tendo eu e os homens lá fora essa mesma percepção, irão receber pelas gotas de seu suor, sangue, força e cansaço muito menos do que mereciam. Mas ainda assim, quase como uma ironia, sentir-se-ão satisfeitos, por recebê-la.
Aqui dentro, incomodado pelo barulho dos homens lá fora e pelo barulho de meus pensamentos, tenho na boca a amarga sensação do suor, do sangue, da força e do cansaço. Atenuado pelo desconforto que a carne e os ossos produzem. Viver é exaustivo.
Abro a janela e vejo-os nitidamente, são tão reais quanto eu. Lá fora, vejo a origem do barulho e expressões rudes incumbidas pela força utilizada. Fecho a janela, e ao contrário do que supunha, não vi em parte alguma a origem dessa inquietação que me agonia, sendo que esta também é tão real quanto eu ou os homens lá fora. Calar-se-ão os barulhos lá fora e, entretanto aqui dentro os barulhos permanecerão insistentemente.
Os homens de carne e ossos regressarão as suas casas, a rua já estará desbloqueada. Mas meu suor, meu sangue, minha força e meu cansaço não serão o suficiente para desbloquear as vias de minha vida.
Viver é exaustivo

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