terça-feira, 1 de julho de 2008

Pássaro Manso

Tava cansado de todo esse lixo, estar ali ou não estar, tanto faz, era sempre como se não estivesse. Queria mesmo era que o azul do céu ficasse sempre suspenso sobre sua cabeça, mas não, malditas nuvens rancorosas que lhe faziam sombra. Maldito dia que nunca acabava maldito sapato que lhe apertava os dedos maldito dia que resolveu ganhar dinheiro. Então era isso, essa gravata, essa mulher que se diz sua secretária, esses papéis que devia ler, concordar ou não e assinar, as transações do mercado, o rival da empresa, tanto faz, tanto faz, era como se não estivesse ali.
Malditas nuvens rancorosas, argh, nem ao menos via o céu. Mas sabia que estava lá, sabia que o certo era sair e deixar tudo assim, no caos, o certo era abrir a janela e voar como pássaro, ahhh um pássaro no céu manso e sozinho. Pensava nisso enquanto a secretária, sempre ela, lhe avisava que a reunião das 15 horas foi adiada, pouco importa, se tudo que queria era ser um pássaro.
O mundo moderno, os homens modernos, a sociedade moderno, asco, nojo a realidade que lhe cercava. Lixo, lixo, estava cansado dessa luta de classes, cansado de estar na burguesia, cansado de ser qualquer coisa, mas não era socialista ou comunista ou anarquista, ou qualquer outra política de esquerda, não. Amava seu dinheiro, apenas estava cansado de ter que ser algo, cansado do fardo da liberdade. Talvez estivesse escolhendo errado, argh, sim, talvez fosse uma escolha errada.
Mas dali ia pra casa, o alívio de poder tirar esses malditos sapatos, de pisar no carpete com os pés descalços, e estaria livre dessa secretária, não era uma má pessoa, até que simpatizava com seu sorriso, mas ela nunca sorria. Também pudera, o clima da empresa era sempre terrível. Talvez devesse fugir com a secretária, coitada, não merece viver num ambiente daqueles, devia fugir com ela ou então convidar ela para ser pássaro. Bem mais bonito dois pássaros no céu manso do que um só. Mas que imagem teria a secretária de mim? Sim, eu sempre ocupado, sempre nervoso, sempre estressado, sempre como se estivesse ausente, sempre me adaptando e já quase sendo parte de todo aquele lixo.
Talvez devesse sorrir amanhã para ela, pra não parecer tão frio quando e tão estranho quando a chamasse em sua sala e lhe dissesse “Senhora Elizete, quer ser pássaro comigo? Sim, isso mesmo, pássaro. Não me olhe com essa cara, eu sei que está tão cansada quanto eu desse lixo, e que por isso pouco sorri. Digo mais, gosto do seu sorriso. Já imaginou que bonito nós dois num céu manso e azul? Não, não estou ficando louco, já disse para não me olhar com essa cara. E então, o que me diz?” Se ela aceitasse era só abrir a janela, mas corria o risco dela não entender nada e começar a gritar impropérios a sua pessoa. É, talvez fosse melhor voar sozinho, pensava enquanto folheava o jornal sem ler matéria alguma, apenas indo em direção ao horóscopo. Não que acreditasse nisso, longe disso, mas era mortal, não podia deixar de ler. “Dia ruim nos negócios”, oras, todos os dias são ruins no negócio, aquele lixo, aquela gravata insuportável, o cargo das escolhas. Mas na verdade tanto fazia, era como se não estivesse ali.
Mas talvez se Elizete aceitasse o convite... Maldita Elizete que tinha o direito de recusar o seu convite, devia mesmo ficar penando naquele lugar horroroso, era tão simples, só dizer sim. Pensava nisso ainda minutos antes de dormir, isso misturado ao dia ruim nos negócios e de na verdade todos os dias serem ruins o cansaço o céu manso, pássaro sozinho, será que sorria amanhã para Elizete?
Maldito fardo das escolhas, o sapato apertado de amanhã, arghh, malditas nuvens rancorosas.

Um comentário:

bruno nobru disse...

e vamos voar...
muito bom o texto, acho que depois dessa a dona Elizete nao vai mais ser a mesma