sexta-feira, 18 de julho de 2008

Como se infiltra o privilégio

Antoni Maestro viu pela vitrine da loja mais fashion da cidade o sapato mais bonito que um homem poderia ter. Seria uma ousadia descabida compra-los, mas seria uma frustração ainda maior não ser o privilegiado a usá-los.
Afinal, Antoni Maestro merecia agradar seu ego. Era jovem, trabalhador, bondoso, honesto, bonito, inteligente, daqueles que jamais se deixam levar por uma paixão descabida, enfim, era um homem responsável, cumpridor de suas obrigações, mas que hoje, justamente hoje, se via no direito de ser o privilegiado a usar os sapatos mais bonitos que um homem poderia ter.
Porém o sapato deveria ser caro, estava à venda na loja mais fashion da cidade, onde tudo era moderno, uma fachada bonita e o calçamento em pedras lustrosas. Ele era um homem simples, simples e sem dinheiro suficiente para aqueles sapatos. Talvez se abdicasse de uma ou outra compra durante o mês, uma economiazinha e no fim do mês teria dinheiro suficiente. Mas bonitos do jeito que eram logo outro homem passaria na frente da vitrine e sentiria o mesmo encantamento que ele pelos sapatos, não podia correr o risco de perdê-los a um homem qualquer.
Então, averiguando a situação, entrou na loja. Um frio na espinha lhe cruzou de repente, ao que a moça, a atendente, veio em sua direção: “Precisa de ajuda Senhor?”, “Aqueles sapatos da vitrine, quanto custam?”, “Á vista são R$ 356, 00.”.
Fitava os olhos da moça ainda horrorizado com o preço, R$ 356, 00, mas isso era ainda muito mais do que aquilo que supôs que não seria capaz de pagar. Agradeceu e saiu pensativo, avaliando as vantagens e desvantagens de tal custo. Era o sapato mais bonito que um homem poderia ter, e era merecido que fosse seu, só seu, demais ninguém. Mas todo aquele dinheiro, a onde arranjaria?
Não teve jeito, ele, homem trabalhador, bondoso, honesto, bonito, inteligente, cumpridor de suas obrigações, havia se deixado levar por uma paixão descabida, estava à mercê de qualquer pensamento ligeiro, e assim se fez, iria roubar os sapatos.
Claro, um roubozinho de nada. São só sapatos afinal, e os donos da loja mais fashion da cidade não sofreriam com um rombo no orçamento de R$ 356,00 no final do mês. Era o certo, ceder a esse ato louco de luxúria. Precisa daqueles sapatos.
E na manhã seguinte, assim que a loja abriu, como quem não quer nada, aproximou-se da vitrine, distraiu a atendente, a mesma do dia anterior, e numa fração de tempo, num suspiro de deus, pegou o par de sapatos e escondeu-os rapidamente dentro da sacola que trazia. Ninguém suspeitaria de nada, era uma sacola discreta, e ele era um homem honesto.
Agradeceu e saiu pensativo, avaliando o perigo de ser descoberto. Em passos rápidos cruzou a esquina da loja, estava a salvo, tinha os sapatos mais bonitos que um homem poderia ter. Mas, uma desilusão crescia e ofegante fazia-o sofrer, fazia temer muito mais do que ser descoberto, com os olhos marejados de lágrimas desejava chegar logo em casa, e se os sapatos da vitrine não fossem o seu número?
Tinha esquecido de conferir, meu deus, e se todo esse malabarismo tivesse sido em vão? Com que cara devolveria os sapatos? Não, não, deus não podia armar isso com ele, haveria de ser seu número.
Sôfrego e tenso, na luz fraca de seu quarto, agora sozinho e longe do perigo, tirou o par de sapatos mais bonitos de dentro da sacola. O medo corrosivo de não ser seu número, precisava calçar, precisava conferir, precisava sentir o conforto que só aqueles sapatos poderiam lhe oferecer.
Antoni Maestro, tirou seus sapatos velhos e sujos, colocou meias novas, sim, um momento como esse pedia meias novas, e torcendo para que a medida de seu pé e do sapato serem a mesma, calçou-os. Uma frouxura na alma se apoderou dele, era seu número. Era o homem mais privilegiado do mundo.
Se bem que, não poderia usar esses sapatos, seus conhecidos saberiam que ele não tem dinheiro para esse tipo de compra e logo se dariam conta de que esse era o sapato roubado da loja mais fashion da cidade.
Uma ponta de arrependimento se fez, não adiantaria de nada ser o homem mais privilegiado do mundo se os outros não pudessem saber, se não vissem o quão bem aqueles sapatos lhe caíram.
Mas, em compensação não seria descoberto e ninguém, a não ser ele, usaria os sapatos mais bonitos que um homem poderia de ter. Tinha para si o privilégio que todos os homens gostariam de ter.
Ainda que não pudesse revelá-lo a ninguém.

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