quarta-feira, 16 de julho de 2008

Espiral

Ele tava me olhando com aquela cara estranha de quem vai dizer algo, então já fui me preparando pra ouvir o que quer que fosse, mas ele não sabia muito bem o que ia me dizer, ficou parado com aquela cara, como quem procura as palavras certas, ou então não sabia como me dizer o que ia me dizer.
Mas eu fiquei ali, daquele jeito, fingindo que não sabia que ele tinha algo a me dizer. Até que sem nenhuma espera ele segurou meu braço, não disse nada, mas ficou me olhando com uma cara de espanto e eu ao ver aqueles olhos turbulentos acompanhei o seu olhar que ia direto pr’um pronto acima do horizonte. Pensei que fosse piração da minha cabeça, mas logo seu dedo indicador estendeu-se na mesma direção, confirmando o que seus olhos queriam me mostrar.
Então eu forcei a vista de um jeito cético e um nó seco me prendeu a garganta, nunca fui de ficar amedrontado, mas confesso que fiquei impressionado. E era uma espiral gigantesca feita no céu. Nas mais diversas cores, numa psicodelia juvenil inexplicável, mas eu era homem feito e sóbrio. Aquilo só podia ser obra de um anjo de deus ou do diabo.
E fiquei pasmo parado olhando pro céu, aquela infinidade de cores naquela espiral. E vi que ele ainda continuava daquele jeito. E eu fiquei calado, tentando encontrar uma razão pr’aquilo tudo, ou então dizer algo.
E quanto mais eu olhava mais alucinante era o que eu via, então coloquei as mãos nos bolsos da calça, baixei o olhar pra terra seca e mordi meu lábio inferior. Louco eu não era.
Foi então que distraído desse jeito senti sua mão fria de novo a me segurar, meu coração acelerou-se com a idéia de que a aparição pudesse ter se transmudado pra outra coisa. E então acompanhei de novo seus olhos turbulentos, o dedo indicador não se faz mais necessário, de súbito avistei o céu, e nada mais havia ali. E eu homem feito e sóbrio, duvidei da minha lucidez.
E ele continuou me olhando com aquela cara estranha de quem vai dizer algo, e eu pensei que dessa vez ia mesmo dizer algo e fiquei olhando pra ele a espera de quê dissesse qualquer coisa, mas ele não sabia muito bem o que ia me dizer.
E dessa vez eu o compreendia.

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