segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Banco de Ônibus

Eu pegava aquele ônibus todos os dias. As 13h05min, despontualmente, porque ele nunca chegava no horário. Dali ia para o trabalho, por isso sempre levava umas pastas com folhas importantíssimas dentro.
Eu pegava esse ônibus porque ele estava quase sempre vazio, tinha mais espaço para mim e para as minhas folhas e porque aquele tumulto todo me ferve o sangue.
E tinha o cobrador, um cara branco com cabelos engraçados. Engraçados mesmo, meio que tinha uns cachos estranhos, não sei explicar. Mas era um bom sujeito, sempre disposto e tal, mas eu não tava pra amizades, já pegava esse ônibus porque ele tava quase sempre deserto. Podia me sentar sozinho e ficar vendo o mundo, cada vez mais sujo, passar pelos meus olhos. Era ainda mais cinematográfico quando chovia, aí sim, sentia-se muito bem.
O fato era que nos primeiros dias ele me tratou um tanto quanto formalmente, “Boa tarde, senhor. Até onde?”, mas depois já foi pegando intimidade “Mais um dia não é Senhor? Até o Centro Comercial?”. E eu até aí suportava, porque depois ele ia embora, não ficava puxando assunto.
Mas um dia ele chegou com o seu “Boa tarde, senhor” e começou a me falar coisas qualquer de sua vida, de uma gripe que passageira, do clima que muda tão rápido, e eu fingi atenção. Momento pelo qual me arrependo até hoje, foi como se dissesse “Sim, podemos criar uma relação amigável”. Mas não podíamos não, aquilo tudo era mero acaso, ele estava ali e eu também, ele tinha problemas e eu também, mas não estava ali disposto a amizades.
Depois a coisa deslanchou, certo dia me falou de seu casamento e me pediu se eu era casado, eu disse que não, que era solteiro. E ele começou a inventar histórias, e me dizer que eu era um sujeito de sorte por não estar preso a nenhuma mulher, cara, aquilo já estava me enchendo muito o saco. Eu só queria ficar sozinho no banco do ônibus, mas daí o cobrador achava que tinha liberdades para comigo e ficava ali, conversando, porque o ônibus era quase sempre deserto.
Eu pensei que talvez fosse melhor pegar o ônibus das 13h15min, mas esse estava sempre lotado. E certamente teria um desconhecido do meu lado que não iria se conter e fazer comentários, e isso me ferve o sangue.
Pensei também em ir a pé, mas eu demoraria tempo demais. Pensei em táxi, ou em comprar um carro, mas não, nada disso era solução certa pra mim.
Não tinha jeito, cinco dias por semana era aquele sujeito branco do cabelo engraçado conversando como se fossemos amigos de muito tempo, mas não éramos amigos. Jamais seriamos.
Até que Ronni, esse era o nome do cobrador, me convidou para ir visitá-lo em sua casa, conhecer sua família. Foi aí que me dei conta de que as coisas tinham evoluído demais, que eu fingindo atenção a um desconhecido fiz um vínculo.
Até pensei em ir, mas não podia. Eu não queria uma amizade, nem queria ficar fingindo atenção. Só queria ver o mundo, cada vez mais e mais sujo passando pelos meus olhos.
E certa tarde não me contive, sei que por Ronni estar envolvido nesse vínculo, magoei-o, mas não podia deixá-lo se iludir, não podia mais fingir atenção.
Foi como os dias de sempre “Boa tarde, como vai?” e daí em diante ele nem me deixou responder, saiu falando do seu time de futebol, e eu nem gosto de futebol, mas fui ouvindo e ele começou a fazer comentários da morena que havia subido no ônibus, e eu completamente de saco cheio, e ele falando que a vida era difícil, das contas do fim do mês, contas? Isso me fez lembrar que tinha esquecido um dos meus papéis super importantes na gaveta de casa.
Meu sangue ferveu, ele lá, “blá blá blá blá”, interrompi-o sem me dar por conta do que ele dizia.
-Cala a boca! Gritei eu tenso, ele me olhou com aqueles olhos derramando surpresa.
Eu nem fiz conta, ele me pediu desculpas, assim, querendo levar a conversa adiante, como se tivesse errado, mas ele não tinha errado. Quem havia errado fui eu no dia em que fingi atenção e assim lhe dei permissão para conversar comigo.
Então virei o olhar pra janela, ele compreendeu.
No outro dia, Ronni limitou-se a um “Bom dia” como lhe exige a profissão, mas não conversou mais comigo, e foi assim que terminou nossa amizade, amizade da parte dele, diga-se de passagem, para mim era um incomodo desnecessário do acaso.
E pela primeira vez, em muito tempo, pude ficar só no ônibus como numa daquelas tomadas de cinema. Pra ser melhor só faltava chover.
Às vezes eu sentia o olhar de Ronni sobre mim, mas fiz pouco caso, antes que ele achasse que eu estava arrependido.

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