segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Deus Negro

Gosto quando fala do jeito que te dói, não que te queira sofrendo, mas é que fala dum jeito que o talho no peito que te fizeram é em mim que sangra. Tua verve enchendo os meus olhos de lágrimas, pus, desejo e salvação. E em mim aquele sangue, aquele sangue escorrendo descendo pelo peito sob a camisa que era branca, aquela dor que não existia, mas que de tanto o sangue se perder me fez acreditar que era um corte enorme que atravessava todas as barreiras da carne e atingia o intangível, e tu ia dizendo, dizia do silêncio, dizia do medo, dizia do poder, da coerção, dizia do cigarro, das drogas, dos homens, e dizia tanto que pela intensidade do sangue o talho havia se instalado na alma. Quase uma doença, um deus negro, noites no bar. E eu querendo te ouvir, mesmo não parando de chorar mesmo vertendo pus desejo e salvação dos meus olhos pequenos e retraídos. E quis te entender, mas acho que não era preciso dizer, já não se via mais o branco, só vermelho, vermelho intenso, deuses negros.
E disse que sentia saudades, às vezes vontade de chorar, disse de algumas lembranças da infância e de gente que nem conheceu, disse da flor, das idéias e de alguns céus de diamantes, e eu já era toda uma cor exuberante, eu era tudo e mesmo assim continuava sendo nada, e disse da força que brotava de dentro, dos impulsos e de algumas certezas súbitas que causavam espanto. E rasquei a camiseta branca, agora era só teu sangue na minha pele escorrendo, era só teu sangue transbordando em mim. E disse que eu precisava me dedicar, disse do caminho das escolhas e eu outra vez fui tudo mesmo ainda sendo apenas um corpo cuja pele se confunde com sangue.
E tua voz foi se enfraquecendo e me aproximei para te ouvir e cheguei bem perto, cada vez mais perto e tua voz cada vez mais rouca, cada vez mais fraca. Num ponto em que caístes na calçada e me desesperei também e não disseste nada, mas eu precisava que dissesse diga diga diga, pelo amor do deus que um dia existiu, pelas noites no bar.
E eu com o ouvido muito próximo da tua boca e exalastes um som como margaridas, tulipas ou jasmins, exalastes um grito mudo de dor em que me fizestes cair também e não sabia se o que havia amortecido minha queda era a aspereza da calçada, a minha cama ou ainda se eram nuvens se era vida ou alucinação. E vi teu corpo estendido ao lado do meu e minha pele não era mais teu sangue e pensei em chorar e chorei desesperadamente quem sabe por minutos quem sabe por horas ou dias ou meses inteiros e quando dei por mim teu corpo já não estava mais lá e quis te beijar, um beijo de amor de dor, quis beijar tua dor, quis me mostrar grata as palavras que me disseste e que mais tarde te levariam ao chão que não saberei nunca se era feito da aspereza do asfalto, da minha cama ou ainda de nuvens. Quis que o sangue jorrasse, não compreendia aquela dor que se parecia tanto com a tua e, no entanto era a minha, não compreendi e eu não te ouvia mais e não via corte algum, não via sangue, nem deuses ou flores e tive certeza, como me dissestes antes, uma dessas certezas súbitas que causam espanto de que era um corte, um corte em mim que atravessava as barreiras da carne e atingia a alma e de meus olhos de novo aquela sensação de te ouvir, mas agora dentro de mim, dentro do meu sangue, em todas partes de mim sussurrando entre espelhos: lagrimas, pus, desejo e salvação. Tua verve para sempre enchendo os meus olhos.

Um comentário:

Eddie Go Die disse...

tá na hora de atualizar isso aqui baby!

Adóóóro te ler!

bjoka