segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Ir à França

Ele me disse que temia morrer, eu lhe disse que não havia com o que se preocupar, a noite era bonita e nós jovens.
A fumaça do cigarro dele me embrulhava o estômago, por instantes senti repulsa de tê-lo ao meu lado, ainda mais depois que me disse que sente medo da morte.
Eu não o enxergava, a luz do quarto era fraca, vinha da rua, mas na certa devia estar de olhos fechados, ele era fraco, não suportava enxergar o breu. Eu não achava desconfortável, mantive os olhos abertos, era só a ausência de luz, nada mais.
Talvez ele me amasse, mas eu não o amava, seria incapaz de amá-lo. Talvez, fosse incapaz de amar qualquer um, mas eu não estava preocupada com isso, não agora.
Senti que ele queria dizer algo, deu um breve suspiro, ajeitou-se na cama, acendeu mais um cigarro. Precisava criar coragem.
Fiquei esperando ele dizer, e por um instante foi como se pudesse ter visto sua boca abrir-se e meia vocal se estender no ar, mas ele não tinha coragem. Então eu lhe disse que desejava ir à França, ele riu. Eu lhe disse que gostava de sua risada.
Ele não disse nada, e eu continuei de olhos abertos avistando o infinito negro do quarto. Pensei em monstros, em fantasmas e na morte. Procurei a mão dele, segurei-a firme, ele tinha medo da morte. Eu não o amava, mas o protegeria.
Ele disse que me levaria a França, eu ri. Disse a ele que os sonhos eram livres, e fiquei pensando no que tinha acabado de dizer. Sonhos eram livres.
O breu do infinito do quarto se estendia em mim, desejei ter sono. Ele disse que precisávamos nos ver mais, eu concordei. Ele disse que sentia minha falta, eu sabia que talvez ele me amasse.
Eu não disse nada, ele também não disse nada. Não dissemos nada por um longo tempo, sua respiração era leve, calma, havia adormecido. Certamente sonhava que me levava a França. Os sonhos eram livres, a noite bonita e nós jovens. Não havia com o que se preocupar.

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