sexta-feira, 28 de março de 2008

O Branco

É desumana a força com que os humanos vivem
Nas ruas e corredores,
Calçadas e interiores vazios.
É desumana a força com que se olham,
A hostilidade com que se tratam,
A frieza com que se abraçam.
É desumano até a sombra na parede,
A tinta descascada do esmalte nas unhas.
Mas nenhuma lágrima se fará visível,
É também desumano a fraqueza com os humanos vivem.

sábado, 22 de março de 2008

Hoje

Diz-se que o céu não está nublado,
Está totalmente amargurado.

sexta-feira, 21 de março de 2008

Se Essa Rua Fosse Minha...

Atravessava a rua em passos largos, em um ligeiro tom de preocupação.
Os braços soltos, num ritmo frenético.
Atravessava a rua em passos largos.
Esperou o carro cruzar a rua, o carro que vinha em alta velocidade.
Talvez esse seja seu grande remorso, se tivesse atravessado na frente do carro agora não estaria tendo essas indagações e tão pouco outros problemas na vida.
De fato, talvez não tivesse vida. Ou tivesse outra vida, a que vem após a morte, se esta existisse.
Mas talvez tivesse apenas fraturas leves, por um descuido da sorte. E ainda teria que suportar as pessoas lhe dizendo para ser mais atencioso, e olhar para os dois lados da rua antes de atravessá-la.
Mas talvez algo muito bom acontecesse dentro de minutos, e se contentaria por ter se permitido viver isso. Talvez fosse um homem mais feliz, ou ao menos um homem com um motivo para atravessar a rua pela faixa de pedestres.
Mas ainda assim tinha medo, talvez o motivo surgisse e ele não fosse capaz de perceber, talvez nunca passasse de um infeliz, um infeliz com remorso.
Atravessava a rua em passos largos.
Lá vem outro carro em alta velocidade.

Tango De Uma Nota Só

-Estás Bien?
Olheio de surpresa, se havia algo que não esperava era que ele sentisse por mim a menor preocupação. Disse por conveniência, por costume.
"Estás Bien?", se tivessemos um grau de proximidade soaria como se realmente estivesse preocupado comigo, disse com um tom de voz que soou desejável que de fato nos conhecessemos.
O certo era que eu estava bem, não de todo bem, mas ainda assim bem. Bem o suficiente para acreditar em alguns sonhos antigos.
Mas aquele "Estás Bien?" calou muito mais fundo do que de costume, talvez o charme que há no sotaque espanhol tenha ajudado.
Sim, era argentino, e talvez por isso junto com esse "estás bien?" eu tenha sentido parte do drama de tangos argentinos. E logo meus olhos ficaram úmidos, talvez eu não estivesse mais bem.
Senti que aos poucos enrubescia, e ele me olhava calmamente, esperava que eu dissesse algo. Já se faziam segundos de silêncio e talvez ele repetisse a pergunta, por achar que eu não o teria entendido.
Só precisava dizer "sim", num tom de agradecimento. Escondendo o certo constrangimento que sua pergunta me causara.
Mas não fui capaz de dizer nada, sorri com os olhos úmidos. E ele parece ter me compreendido, como se também ouvisse o mesmo tango que eu.

terça-feira, 4 de março de 2008