sexta-feira, 30 de maio de 2008

Objeto Estranho...

A faca introduzida ao peito fez-se necessário. A falta da faca introduzida no peito causava um vazio, um tormento insuportável, maior do que o objeto estranho cravado em seu corpo.
A faca arraizou-se tanto e já era tão bem-vinda que acabou por fazer parte de seu semblante. Já nem temia uma possível infecção, a faca já não era mais um objeto estranho.
E todos achavam graça daquele homem cujo peito nunca parava de sangrar, e espantavam-se mais ainda ao se deparar com aquele metal atravessando a camisa, em direção ao peito.
Um dia, num mal jeito qualquer, sentiu que a faca atingiu uma profundidade maior, rasgando-lhe as paredes da alma, mas logo o desconforto da dor foi substituído por suaves pensamentos de que cada vez mais a faca era parte dele. Ele que achava temível demais sobreviver com o vazio que a ausência da faca lhe causaria.
O peito sangrava. Dia e noite. O peito sangrava.
E logo seu sangue fez-se pouco, fez-se um homem fisicamente fraco. Mas quanto mais o corpo sofria mais a alma se enrijecia. Sentia-se quase feliz, fato raro em todos os seus anos vividos.
A faca introduzida no peito fez-se necessário.
E sabia que seria esse seu fim, sabia que morreria, sabia que seu sangue se esvairia, que sua força se perderia. Mas sentia-se tão leve, que a temeridade tornou-se insignificante.
Que venham as dores, as febres incandescentes, os desvarios. Definharia aos poucos, definharia sem jamais ousar tirar a faca do peito.
Iria morrer, morreria de um mal necessário, morreria de amor.

sexta-feira, 9 de maio de 2008

O Segredo De Cada Dia

Não havia dúvidas. O que estava enrolado com aqueles panos vermelhos e sujos era um corpo, um cadáver. Que na certa teve uma morte lenta e dolorosa, e tudo isso porque sabia demais. Estava no lugar errado na hora errada. E eis o que acontece a pessoas azaradas, acabam enroladas em panos vermelhos e são jogadas de qualquer jeito em porta-malas de carros.
Depois disso não se sabe mais nada. Pode ser que sejam enterradas no quintal do malfeitor, ou jogadas em alto mar. E há quem diga ainda que a perversidade é tanta que são capazes de picar o corpo em pedacinhos e fazer dele linguiça, e ainda com mais sofisticação há quem faça sabão.
Por isso me abstenho a qualquer coisa que veja ou ouça que me pareça suspeito. Qualquer indiscrição pode custar a minha vida.
Ontem mesmo, estava na fila do banco quando ouvi os dois senhores a minha frente (vestidos com muita destinção, diga-se de passagem) dizendo: "Dentro de 5 minutos a casa cai, você pega a senhora de azul e eu o homem calvo a direita." Não tive dúvidas, um assalto se faria dentro de instantes e estavam escolhendo os reféns do crime. Virei-me sinuosamente em direção a porta giratória e sai o mais rápido possível. Na manhã seguinte, em quanto saboreava meu café, li nas páginas policiais as notícias do assalto.
Nunca comentei o acontecido com ninguém, assim como não comento os corpos que vejo em porta-malas, as doses de veneno postas meticulosamente em copos de bebidas, as casas saqueadas em plena luz do dia, os tiros certeiros, os papéis levemente falsificados.
É assim que me mantenho vivo, cego as verdades.
Nestes meus 17 anos de ofício como delegado, a justiça pode muitas vezes não ter sido feita, mas que justiça haveria de ter na morte de uma pessoa inocente?
Não sinto culpa de ocultar os fatos, tenho certeza de que o que vi hoje enrolado no porta-malas do carro, em panos vermelhos era um cadáver. E tudo isso porque sabia.