domingo, 22 de junho de 2008

Feito Na Hora, Como Pastel!

Só se ouvia o vento. A janela com panos, segurando os vidros para que não atrapalha-se seus pensamento bons, que eram tão raros naquela noite de angustia. Ela já não agüentava mais tanta chuva e não conseguia terminar seu trabalho que já estava acumulado há horas, e a data de entrega logo chegaria. Justo, pois era tão fácil publicar um conto em 24 horas, é escrever ou morrer!!!
Melhora a temperatura e seus pés com duas meias, já não estão tão gelados e seus dedos duros já se acolhem em meio a luvas mais frescas.
Portanto a noite já caia e pela manhã a entrega era esperada, se ouve uma batida na porta. Quem seria naquele momento tão importuno e molhado?
Mergulhou em seus pensamentos até chegar à porta, quando abriu, sentiu que sua sorte virava. Eram apenas meninos que precisavam ligar para suas mamães, pois sua rua estava cheia de água e esperariam mais algumas horas pra voltar pra casa, fizeram suas ligações e foram de volta pra rua.
Sua mente, que já não estava associando o real do imaginário, acendeu-se. E como num passe de mágica tudo veio a sua cabeça. Como crianças ajudam uma pessoa pobre de pensamentos a ter idéias mirabolantes...
Tudo começou com um grito: PASSAAAAAAAA
-Chuta logo, me dá aqui, tenho que ir embora minha mãe me chama e preciso jantar.
-Deixa ele ir! Vamos ficar aqui conversando, moramos mais longe e nosso ônibus só passa daqui a 2 horas.
Eles ficam ali, todos mentindo um para o outro. Meninas passam, todas cheias de roupas e seus pensamentos só lhe fazem dizer, que saudade do verão!
As roupas grossas fazem com que todos fiquem uns dois quilos mais pesados, porém todos elegantemente mal vestidos. A chuva parece eminente e começa forte, eles se abrigam num canto do parque, onde brigavam por um espaço em baixo da marquise. Carros de todas as cores passavam com pressa e em poucos minutos já levantavam ondas na rua. O frio se acentua e o corpo deles se encolhe como plástico derretido.
Durante algumas horas eles pensam em ir assim mesmo e molhar seus cabelos, mas a chuva era tão forte e o vento cada vez mais rápido e cortante.
Logo a noite caiu, e já não havia modo de irem embora. Foram até uma loja de televisores e viram na reportagem que suas ruas estavam em baixo d’água e que carro nenhum, nem ao menos ônibus, estava indo pra lá.
Avistaram uma casa de madeira, linda. E muito rústica, onde só uma luz estava acessa, resolveram pedir um favor ao dono da casa.
Bateram na porta. Uns pensaram em correr, mas o mais velho deles ficou ali, parado. E todos ficaram pra ver o que ele iria dizer ao Sr. daquela casa tão velha e bonita.
Mas todos ficaram surpresos quando viram uma linda mulher abrir a porta, com cara de zangada, mas logo mudou sua fisionomia.
O mais velho disse: podemos ligar para nossas mamães?
Ela deixou. E disse: Sejam breves, ok? Estou escrevendo e preciso entregar isso amanhã de manhã. Meu filho acabou de dormir não façam barulho, ele jogou bola a tarde toda na praça aqui perto. De repente vocês o conhecem!Ele levou a bola dele pra praça...
Menino de ouro, merece dormir. Usem esse telefone e podem sair pela porta que entraram, vocês me trouxeram uma idéia legal.


Escrito por T. Vicente, um ótimo conto.
=]

Cinza


"Na santa paz de Deus, no mais perfeito caos..."

sexta-feira, 20 de junho de 2008

Poemas de Um Amigo

Ao que, ele se revela um grande poeta: Luiz Godard.



Se ela vier por aqui

Se ela vier por aqui,
Diga-lhe que estou bem.
Apesar de nessa cidade vazia
Nao conhecer quase ninguem.
Apesar das noites interminaveis,
Das sombras nas paredes sujas.
Diga-lhe que estou bem
Mesmo camuflado nas ruas.
Se ela vier por aqui,
Diga-lhe que estou sorrindo.
Apesar dos olhos molhados
afirmarem que estou mentindo.
Apesar de tantas noites vazias,
Perto de tantos estranhos.
Diga-lhe que estou bem
Mesmo sem seus olhos castanhos.
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Clara

Clareou o dia, Clara.
Com sua face nua.
Clarearam os olhos, Clara,
com sua vista crua.
Clarearam as aguas claras
e mais claras ficaram ...
e algo mais caras
claro, também se tornaram.

E mais caras surgiram
Nas noites já claras.
Porém Clara, claro, eles nao a conhececiam.
Moeda velha de duas caras.
Quando na confusao, Clara,
a noite ficou um tanto escura.
E já nâo se enxergava a cara,
que de tâo cara já nos parecia dura
E entao claro,
clareou a noite e fez-se dia,
e já nao eram caras nem carros,
era Clara, que clareando, para casa se ia.
(Sou tua fã, baby...)
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Às flores que nao brotaram
Com as mãos no bolso,
com os pés descalços,
tanto gritei que mal ouço,
o ruido dos teus passos.
A desilusão como troféu...
O vazio da misercórdia...
O gosto amargo do mel...
Os pensamentos em custódia.
Com a mente distante
e as pernas cansadas.
Pregado no instante
com as verdades cruzadas
maldigo o teu nome,
grito ódio ao vazio.
O vazio de quem tem fome
ao leito de um seco rio.

Às flores que não brotaram
adeus... ao dia tão frio.
Aos que do inferno não me salvaram,
os digo : eu prefiro esse vazio!
Com as mãos no bolso,
e o coração aberto.
Um passo lento, pereçoso,
num longo caminho incerto.

sexta-feira, 6 de junho de 2008

De Oscar Wilde, “DE PROFUNDIS”

“É preciso que eu faça com que tudo aquilo que me aconteceu tenha acontecido para o meu próprio bem. Não há um só ato que avilte o corpo que eu não deva transformar numa forma de espiritualização da alma...E se a vida é para mim um problema-como certamente acontece-eu também não deixo de ser um problema para ela. Minha única preocupação é minha atitude mental diante da vida como um todo.
É preciso que eu aprenda a ser feliz. Antigamente eu sabia, ou pensava sabe-lo, por instinto. Antigamente era sempre primavera no meu coração. Meu temperamento era sempre sinônimo de alegria, eu enchia a minha vida de prazer até a borda, como quem enche o seu copo de vinho até a borda.
Desejo viver para poder explorar o que é para mim nada menos do que um mundo novo. Quer saber qual é esse novo mundo? Creio que é capaz de adivinhá-lo: é aquele em que tenho vivido o sofrimento, e tudo aquilo que ele pode ensinar, é o meu mundo novo. Depois de terríveis lutas e dificuldades, consegui, durante estes últimos anos, entender algumas das lições que se escondem no âmago da dor.
Pois o segredo da vida é o sofrimento. É ele que se oculta atrás de todas as coisas..."

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Os Homens de Carne e Osso

Lá fora, os homens feitos de carne e osso trabalham arduamente. Homens com uniformes sujos e desengonçados, que escondem das vista a imperfeição da carne e dos ossos. Desbloqueiam as ruas a base de suor, sangue, força e cansaço. Desbloqueiam a rua lá fora, enquanto eu tento desbloquear as vias da minha vida aqui dentro. Suor, sangue, força e cansaço, impregnados em um corpo de carne e osso.
Aqui dentro quando penso na vida, não a posso achar mais injusta. Lá fora, os homens que trabalham na rua, quando pensam na vida, tão pouco a podem ver menos injusta. O que temos em comum são todas as conveniências que calejam a alma, e o fato de ambos sermos de carne e osso.
É conveniente a eles que façam barulho, que tragam máquinas enormes, das quais não sei o nome, e aos poucos, desbloqueiem a rua. E depois dessa rua, muitas outras ainda precisarão sofrer as mesmas providências. Ao que, sendo o mundo do jeito que é, e tendo eu e os homens lá fora essa mesma percepção, irão receber pelas gotas de seu suor, sangue, força e cansaço muito menos do que mereciam. Mas ainda assim, quase como uma ironia, sentir-se-ão satisfeitos, por recebê-la.
Aqui dentro, incomodado pelo barulho dos homens lá fora e pelo barulho de meus pensamentos, tenho na boca a amarga sensação do suor, do sangue, da força e do cansaço. Atenuado pelo desconforto que a carne e os ossos produzem. Viver é exaustivo.
Abro a janela e vejo-os nitidamente, são tão reais quanto eu. Lá fora, vejo a origem do barulho e expressões rudes incumbidas pela força utilizada. Fecho a janela, e ao contrário do que supunha, não vi em parte alguma a origem dessa inquietação que me agonia, sendo que esta também é tão real quanto eu ou os homens lá fora. Calar-se-ão os barulhos lá fora e, entretanto aqui dentro os barulhos permanecerão insistentemente.
Os homens de carne e ossos regressarão as suas casas, a rua já estará desbloqueada. Mas meu suor, meu sangue, minha força e meu cansaço não serão o suficiente para desbloquear as vias de minha vida.
Viver é exaustivo

terça-feira, 3 de junho de 2008

Soslaio Para Um Sol

o sol dos
olhos
saltam
pela face
em busca
de terras
que possam
iluminar.
saltam
em sutis movimentos
chamados
olhar.