quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Sobre O Travamento Humano

Pensa cabeça. Pensa. Que é pra isso que você foi feita. Como ousa me trair desse jeito, me deixando completamente infértil de idéias? Como ousa permanecer no mais concreto vazio, me deixando sozinho lastimando por um mísero de luminosidade?
Pensa cabeça, pensa. Que o problema ta aí, na sua frente. Estou aguardando uma solução, mas uma solução de verdade não essas cretinices que você vem me oferecendo, sabes que preciso de muito mais. Que você é capaz de muito mais.
Ou prefere um castigo tácito, desses medievais? Pensa droga, se não sofremos eu e você.
Tu ta olhando? Mas olha bem, ela ta me olhando. Me diz logo o que dizer, deixa de ser babaca. Quantos outros problemas teremos que enfrentar até você aprender a ser eficiente, a ser ágil? Ela vai embora se eu não disser nada, mas eu não sei o que dizer...
Cabeça, cabeça, onde está a desgraça da razão? Não eu não posso mentir, não quero mentir! Ah, claro, é fácil para você articular mentiras, mas agora expressar-se mediante a verdade, contar os sentimentos, isso não é com você. Sua estúpida, merecia mesmo um castigo estupendo!
O pior são esses olhos dramáticos na minha frente como se o mundo fosse desabar, e esse eu que não para de pensar mesmo estando alheio a outros pensamentos. Que raios eu to falando? Eu to suando frio, tenho a impressão que dezenas de olhos me fitam, todos tão angustiados quanto minha cabeça vazia.
Anda, pensa! jamais te perdoarei por uma traição como essa. Covarde!
.-Senhor Medeiros?
E esse homem, quem é ele? Ah, sim, ele é o homem responsável pela minha repentina crise, pelo meu vexame, meu não, dessa cabeça ingrata! Que dizer? Ele me olha carinhosamente, mas ela me olha como um bicho acuado, me olha prestes a sufocar num grito de desalento.
Árido, minha cabeça gira sem parar, meu estômago reflete essas voltas, ânsia insuportável. Talvez se eu desmaiasse, ao menos teria uma desculpa ou mais tempo para pensar. Esses olhos, esses olhos, essa dezena de olhos!
-Aceita Luzia como sua única esposa, prometendo amá-la e respeita-la na alegria e na tristeza, na saúde e na doença?
Pensa cabeça, pensa! Você me fez chegar até aqui e agora trava? Agora me deixa pateta na frente desse altar gelado, dessa cerimônia medíocre que você concordou só para satisfazer Luzia?
Luzia que me olha amedrontada, com olhos suplicantes. Que infeliz é você traidora, que infeliz dia que confiei minha vida a ti. Desmaiar, o certo era desmaiar, nem que fosse de cara no bolo. Ainda assim seria menos vergonhoso.
-Senhor Medeiros, sente-se bem?
Diz algo, diz algo. Não me faz perecer ainda mais. Cabeça, que espécie de mim é você?
-Sim... sim, aceito.
Aah! Finalmente, pensei que fosse me fazer perder a mulher mais linda que já vi, pensei que fosse me fazer sofrer irremediavelmente para sempre.
Sua estúpida, podia ter passado sem essa, sem esse suspense pelo qual terei, terei? Teremos! Isso sim, teremos que nos explicar... Isso é hora de travar? Medíocre, mas contigo eu me acerto depois.
Olha Luzia, sua face desprendeu-se do medo, como eu amo essa mulher.

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Um Apólogo - Conto de Machado de Assis

Um Apólogo

Machado de Assis

Era uma vez uma agulha, que disse a um novelo de linha:

— Por que está você com esse ar, toda cheia de si, toda enrolada, para fingir que vale alguma cousa neste mundo?
— Deixe-me, senhora.
— Que a deixe? Que a deixe, por quê? Porque lhe digo que está com um ar insuportável? Repito que sim, e falarei sempre que me der na cabeça.
— Que cabeça, senhora? A senhora não é alfinete, é agulha. Agulha não tem cabeça. Que lhe importa o meu ar? Cada qual tem o ar que Deus lhe deu. Importe-se com a sua vida e deixe a dos outros.
— Mas você é orgulhosa.
— Decerto que sou.
— Mas por quê?
— É boa! Porque coso. Então os vestidos e enfeites de nossa ama, quem é que os cose, senão eu?
— Você? Esta agora é melhor. Você é que os cose? Você ignora que quem os cose sou eu e muito eu?
— Você fura o pano, nada mais; eu é que coso, prendo um pedaço ao outro, dou feição aos babados...
— Sim, mas que vale isso? Eu é que furo o pano, vou adiante, puxando por você, que vem atrás obedecendo ao que eu faço e mando...
— Também os batedores vão adiante do imperador.
— Você é imperador?— Não digo isso. Mas a verdade é que você faz um papel subalterno, indo adiante; vai só mostrando o caminho, vai fazendo o trabalho obscuro e ínfimo. Eu é que prendo, ligo, ajunto...

Estavam nisto, quando a costureira chegou à casa da baronesa. Não sei se disse que isto se passava em casa de uma baronesa, que tinha a modista ao pé de si, para não andar atrás dela. Chegou a costureira, pegou do pano, pegou da agulha, pegou da linha, enfiou a linha na agulha, e entrou a coser.
Uma e outra iam andando orgulhosas, pelo pano adiante, que era a melhor das sedas, entre os dedos da costureira, ágeis como os galgos de Diana — para dar a isto uma cor poética. E dizia a agulha:

— Então, senhora linha, ainda teima no que dizia há pouco? Não repara que esta distinta costureira só se importa comigo; eu é que vou aqui entre os dedos dela, unidinha a eles, furando abaixo e acima...A linha não respondia; ia andando. Buraco aberto pela agulha era logo enchido por ela, silenciosa e ativa, como quem sabe o que faz, e não está para ouvir palavras loucas. A agulha, vendo que ela não lhe dava resposta, calou-se também, e foi andando. E era tudo silêncio na saleta de costura; não se ouvia mais que o plic-plic-plic-plic da agulha no pano.

Caindo o sol, a costureira dobrou a costura, para o dia seguinte. Continuou ainda nessa e no outro, até que no quarto acabou a obra, e ficou esperando o baile.Veio a noite do baile, e a baronesa vestiu-se. A costureira, que a ajudou a vestir-se, levava a agulha espetada no corpinho, para dar algum ponto necessário. E enquanto compunha o vestido da bela dama, e puxava de um lado ou outro, arregaçava daqui ou dali, alisando, abotoando, acolchetando, a linha para mofar da agulha, perguntou-lhe:

— Ora, agora, diga-me, quem é que vai ao baile, no corpo da baronesa, fazendo parte do vestido e da elegância? Quem é que vai dançar com ministros e diplomatas, enquanto você volta para a caixinha da costureira, antes de ir para o balaio das mucamas? Vamos, diga lá.

Parece que a agulha não disse nada; mas um alfinete, de cabeça grande e não menor experiência, murmurou à pobre agulha:

— Anda, aprende, tola. Cansas-te em abrir caminho para ela e ela é que vai gozar da vida, enquanto aí ficas na caixinha de costura. Faze como eu, que não abro caminho para ninguém. Onde me espetam, fico.

Contei esta história a um professor de melancolia, que me disse, abanando a cabeça:

— Também eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária!


Publicado originalmente em Gazeta de Notícias 1885Texto extraído do livro "Para Gostar de Ler - Volume 9 - Contos", Editora Ática - São Paulo, 1984, pág. 59.

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Banco de Ônibus

Eu pegava aquele ônibus todos os dias. As 13h05min, despontualmente, porque ele nunca chegava no horário. Dali ia para o trabalho, por isso sempre levava umas pastas com folhas importantíssimas dentro.
Eu pegava esse ônibus porque ele estava quase sempre vazio, tinha mais espaço para mim e para as minhas folhas e porque aquele tumulto todo me ferve o sangue.
E tinha o cobrador, um cara branco com cabelos engraçados. Engraçados mesmo, meio que tinha uns cachos estranhos, não sei explicar. Mas era um bom sujeito, sempre disposto e tal, mas eu não tava pra amizades, já pegava esse ônibus porque ele tava quase sempre deserto. Podia me sentar sozinho e ficar vendo o mundo, cada vez mais sujo, passar pelos meus olhos. Era ainda mais cinematográfico quando chovia, aí sim, sentia-se muito bem.
O fato era que nos primeiros dias ele me tratou um tanto quanto formalmente, “Boa tarde, senhor. Até onde?”, mas depois já foi pegando intimidade “Mais um dia não é Senhor? Até o Centro Comercial?”. E eu até aí suportava, porque depois ele ia embora, não ficava puxando assunto.
Mas um dia ele chegou com o seu “Boa tarde, senhor” e começou a me falar coisas qualquer de sua vida, de uma gripe que passageira, do clima que muda tão rápido, e eu fingi atenção. Momento pelo qual me arrependo até hoje, foi como se dissesse “Sim, podemos criar uma relação amigável”. Mas não podíamos não, aquilo tudo era mero acaso, ele estava ali e eu também, ele tinha problemas e eu também, mas não estava ali disposto a amizades.
Depois a coisa deslanchou, certo dia me falou de seu casamento e me pediu se eu era casado, eu disse que não, que era solteiro. E ele começou a inventar histórias, e me dizer que eu era um sujeito de sorte por não estar preso a nenhuma mulher, cara, aquilo já estava me enchendo muito o saco. Eu só queria ficar sozinho no banco do ônibus, mas daí o cobrador achava que tinha liberdades para comigo e ficava ali, conversando, porque o ônibus era quase sempre deserto.
Eu pensei que talvez fosse melhor pegar o ônibus das 13h15min, mas esse estava sempre lotado. E certamente teria um desconhecido do meu lado que não iria se conter e fazer comentários, e isso me ferve o sangue.
Pensei também em ir a pé, mas eu demoraria tempo demais. Pensei em táxi, ou em comprar um carro, mas não, nada disso era solução certa pra mim.
Não tinha jeito, cinco dias por semana era aquele sujeito branco do cabelo engraçado conversando como se fossemos amigos de muito tempo, mas não éramos amigos. Jamais seriamos.
Até que Ronni, esse era o nome do cobrador, me convidou para ir visitá-lo em sua casa, conhecer sua família. Foi aí que me dei conta de que as coisas tinham evoluído demais, que eu fingindo atenção a um desconhecido fiz um vínculo.
Até pensei em ir, mas não podia. Eu não queria uma amizade, nem queria ficar fingindo atenção. Só queria ver o mundo, cada vez mais e mais sujo passando pelos meus olhos.
E certa tarde não me contive, sei que por Ronni estar envolvido nesse vínculo, magoei-o, mas não podia deixá-lo se iludir, não podia mais fingir atenção.
Foi como os dias de sempre “Boa tarde, como vai?” e daí em diante ele nem me deixou responder, saiu falando do seu time de futebol, e eu nem gosto de futebol, mas fui ouvindo e ele começou a fazer comentários da morena que havia subido no ônibus, e eu completamente de saco cheio, e ele falando que a vida era difícil, das contas do fim do mês, contas? Isso me fez lembrar que tinha esquecido um dos meus papéis super importantes na gaveta de casa.
Meu sangue ferveu, ele lá, “blá blá blá blá”, interrompi-o sem me dar por conta do que ele dizia.
-Cala a boca! Gritei eu tenso, ele me olhou com aqueles olhos derramando surpresa.
Eu nem fiz conta, ele me pediu desculpas, assim, querendo levar a conversa adiante, como se tivesse errado, mas ele não tinha errado. Quem havia errado fui eu no dia em que fingi atenção e assim lhe dei permissão para conversar comigo.
Então virei o olhar pra janela, ele compreendeu.
No outro dia, Ronni limitou-se a um “Bom dia” como lhe exige a profissão, mas não conversou mais comigo, e foi assim que terminou nossa amizade, amizade da parte dele, diga-se de passagem, para mim era um incomodo desnecessário do acaso.
E pela primeira vez, em muito tempo, pude ficar só no ônibus como numa daquelas tomadas de cinema. Pra ser melhor só faltava chover.
Às vezes eu sentia o olhar de Ronni sobre mim, mas fiz pouco caso, antes que ele achasse que eu estava arrependido.