sábado, 7 de março de 2009

Ella

Há dias que não se sentia assim, assim como se não houvesse palavras para definir o que sentia. E era necessário que tudo fosse classificado, definido, organizado.
Um desajuste desses num peito como aquele traria problemas de ordem descomunais.
Hoje quando o reviu cortando a espessura do ar com passos acelerados e diretos, sentiu que ele não desviaria seu olhar sob hipótese alguma, salvo, é claro, se acontecesse um episódio inusitado. E mesmo assim, seus olhos se distanciariam de vê-la, sendo sugados pela curiosidade de desbravar o acontecido. Não a veria, outra vez.
Ela lembrou-se que já havia lido algo escrito por ele, em alguma coluna de jornal de baixa circulação. Era de opinião conturbada, tendencioso a clichês, parecia raso de bravura, ao menos quando se expressava literalmente, pois seu porte e seus passos diziam exatamente o contrário. Fervorosamente centrado e firme. Era ele, sua própria contradição.
E o vendo agora, envolta ainda num desconhecido sentimento, percebeu que sua postura lhe atormentava. Sim, seus gestos não condiziam com o homem das páginas do jornal.
Reteu-se um instante e tendo-o agora de costas para si, com passos frenéticos e eloqüentes, distanciando-se cada vez mais de uma possível aproximação, sentiu no peito um calafrio, um ardor daqueles que condiz a pressentimentos (ela que não era muito de ter pressentimentos) e uma angústia caustica lhe subiu a alma, por deus, o homem que se escondia por trás daquele modo robusto e feição aplacadora trazia dentro de si, não mais do que um arquétipo qualquer pobre e indeciso sobre seus anseios sob a vida.
Marchava indiferente, como se seus passos se destacassem em um néon que atravessava todas as ruas da cidade, mas era inconstância. Encenação, nada mais. Ao fim todos fingem para si sua imagem no espelho.
E o vendo desaparecer, tendo certeza da estranha condição que cada um se impõe, remoeu-se sozinha, construindo mentalmente uma análise de sua linguagem corporal e depois a comparando com as palavras no papel e a tinta abstrata de todas as telas, descobriu-se imóvel, pálida. Escondia algo de si, mas o quê seria? A verdade se contradizia. Obrigou-se há refletir um instante, e desconheceu também seus anseios sob a vida.
-Bom dia, Cristhi! Saúda um transeunte que também encena.
-Bom dia! E como não haveria de ser? Responde sem hesitar, em quanto seu sorriso esconde de si, as cortinas que abrem os atos.

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