sábado, 7 de março de 2009

Petálas

Percebia-se no fundo, aquele olhar meio enviesado, como se desconfiasse do destino. Como se em alguma parede alguém já tivesse rabiscado esse olhar antes, como se estivessem brincando com sua resistência.
Um olhar que às vezes, meio distante, tinha a tristeza de muitos anos desconhecidos, de planos e sonhos que lhe foram negados, de alegria que não teve oportunidade de se mostrar. Como se alguém estivesse brincando com sua resistência.
Poder mediúnico, talvez tivesse premonições, sensibilidade aguçada, erro de percepção, loucura. Dormia e seus sonhos eram esquetes da realidade, dormia e o peso do mundo não lhe saia do consciente. Seria alguma auto-sabotagem? Uma espécie de vingança inconsciente a sua forma indiferente de levar a vida? Seria ela tão cruel e saberia ela vingar-se com justiça?
Não, não, não, percebia-se no fundo, aquele olhar desconfiado. Melhor esquecer. Deveria existir um deus, senhor da consciência, a razão de toda a constelação, a explicação para as linhas da palma da mão, o pulsar da natureza, deveria existir algo. Algo testando a sua resistência, aquelas alegrias que não tiveram a oportunidade de se manifestar o breu de todo mar momentos de iluminação náusea redenções algo que testava sua resistência.
E olhava sempre sozinha, como se fosse mais difícil esquecer, como se a demência fosse uma opção plausível, como se a realidade estivesse morta. Sempre sozinha e às vezes aquele olhar macio de quem analisa a situação e não há nada errado.
Como se não houvesse nada, nem ao menos paredes onde se rabisque o futuro, como se nada não estivesse como deveria ser.
Seria alguma espécie de auto-sabotagem? E saberia ela dosar a medida certa de uma vingança justa para si?
Percebia-se no fundo, aquele olhar meio enviesado, como se distraído andasse sem dor. Aquele olhar que se misturava ao breu, olhos infinitos de resistência, demência, erro de percepção.
E às vezes sozinha, quando ninguém percebia, sorria. Aquele olhar desajeito, mero acaso.
Auto-sabotagem?
Não, não, não, talvez premonição.

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