terça-feira, 19 de maio de 2009

Os Nervos de Aço Que Precisava

Uma crise. Era isso que tinha, há dias vivia na crise. Pensava nos sentimentos, na falta de vontade, nos conflitos do oriente médio, no formato simétrico da boca dele.
Uma crise era assim, ansiar por várias coisas ao mesmo tempo e não realizar nada daquilo, é uma agonia de esperar, um agonia dessas de acordar no meio de um sonho ruim, vontade de chorar e ao mesmo tempo de não chorar. Não se render assim, tão facilmente, às artimanhas das vontades.
Elas não são suas amigas e você não tem o menor controle sobre elas, vem disfarçadas com sentimentos, querem supremacia total, e você se acomoda, acostuma, gosta.
Você abre a garrafa de vinho, você pega o telefone, você liga pra ele, você fuma um cigarro, você chora, você se embriaga e ri e grita pela rua toda, nua, que não o ama mais.
Aí você acorda. Explica pros seus vizinhos que foi uma crise, que foram os sentimentos. Tenta demonstrar uma certa racionalidade, mas ninguém se apieda de você e sabe por quê? Por que você não sabe se controlar, porque você não manda em você, porque você dá mancada de mais.
E você pensa nos olhos dele. Parece que você o ama, parece que você domina isso. Mas não domina, a pouco você disse que não o amava mais.
E volta a fumar um cigarro, arruma o cabelo, exagera no perfume. Finge que está tudo bem, que não pensa nos sentimentos nem no ser alheio a você que existe dentro de si. O seu pior inimigo, aquele que você tenta matar todos os dias.
Uma crise, era só isso. Explicava assim o repentino sumiço aos bares da cidade. Não era nada demais, nada de grave, e dizia que estava quase namorando e que ele tinha lábios simétricos e olhos perfeitos, que recitava poemas pra você.
E eles a olhavam espantados, notavam que sua língua parecia tremer que sua voz às vezes ficava fraca e que parecia distante. E parecia mesmo que o que tivera fosse uma crise, como se algo dentro de si houvesse morrido.
E você pensava nos sentimentos, na vontade absurda que tinha de mandar todos eles à merda e chorar desgostosamente na calçada.

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