quarta-feira, 17 de junho de 2009

Desconhecido

Primeiro foram os olhos, perfuraram-nos com agulhas de prata. Manteve-se firme perante sua última visão, mãos frias invariavelmente em sua direção.
Depois resolveram mudar a forma de sentir, alteraram seus sentimentos, seus gostos, seu paladar. E por último instalaram-no pensamentos novos. No inicio estranhou aqueles pensamentos ali, invadindo sua vida. Mas logo habituou-se tanto, que deixou de contesta-los. Era até mais cômodo não precisar pensar.
Adaptou-se tanto a essa nova condição, que aos poucos esquecia que era cego. Criava imagens concebidas pelos seus novos pensamentos e construía ali, sua realidade.
Um dos sentimentos novos que mais lhe assegurou a felicidade foi um que respectivamente chamou de conformismo. Ora, o que antes lhe afligia era a sensação de impotência aos fatos, agora tudo estava resolvido. Não se afligia mais, as coisas são como devem ser. Os mesmos homens que lhe perfuraram os olhos, (causando dor e sofrimento, foram também os responsáveis por lhe assegurar a paz de espírito) o ensinaram que tudo é premeditado. E assim deve ser, não se luta contra o destino.
Depois resolveram o deixar apenas em uma posição. Sentaram-no.
Ataram seus braços e suas pernas. Acostumou-se tanto a imobilidade que nem percebeu quando o soltaram, manteve-se sentado. Afinal já não possuía mais pensamentos, nem sentidos e era cego.
Sentado não corria o risco de chocar-se na parede ou aos móveis, e, ou ainda, a pessoas.
Depois, para que não se sentisse tão só, juntaram-no a mais 20 pessoas. Todos sentados em uma sala fechada, asquerosamente branca.
Falaram todos da incapacidade de ver, mas curiosamente nenhum deles lembrava mais como era enxergar. E por fim acabaram acreditando que talvez nunca tivessem visto na vida, talvez fosse apenas mais uma invenção que suas imaginações criaram, houve até quem duvidou de que fossem cegos. E alguns foram além, disseram sim, que eram capazes de pensar por conta própria. Que estes pensamentos ainda eram feitos por eles e não implantados pelos homens.
E foi aí que se instalou o caos. Já não sabiam mais quem eram, esqueceram seus nomes, confundiram suas histórias. Na verdade todos queriam fugir, mas era impossível se mover, então desejaram ser surdos nesse instante. E assim se fez, descobriram que eram capazes de fazer as coisas que imaginavam. E um silêncio abrasador reinou.
Não sabiam se isso havia sido um esquecimento dos homens, ou feito por eles.
Vinte e um homens em uma sala asquerosamente branca.
E duvidaram de que houvesse companhia, talvez estivessem mesmo sozinhos.

5 comentários:

Erika M. disse...

Uau!
Muito bom garota...

Catherine Castanho disse...

Obrigada!

=)

Rafaela disse...

esse seu texto me lembrou muito esse poema:
A caminho com Maiakovski
(Bertolt Brecht)

Na primeira noite, eles se aproximam e roubam uma flor do nosso jardim: não dizemos nada.

Na segunda, já não se escondem. Pisam as flores, matam o nosso cão e não dizemos nada.

Até que um dia o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a luz e, conhecendo o nosso medo, arranca-nos a voz da garganta.

E já não podemos dizer nada.


bem bacana.

Rafaela disse...

olha só, o poema não é do Brecht, é do Eduardo Alves da Costa. Você pode ler ele completo aqui: http://www.umacoisaeoutra.com.br/literatura/falsos.htm

:)

Catherine Castanho disse...

O brecht eu conheço, mas eduardo alves da costa não...
=)

irei ler sim!

E muito bom aquele poema "A caminho com maiakvski", tenho a impressão de já ter visto algo semelhante, mas não recordo direito.

Beijos!