quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Conto Interminado

Um dia nos veremos. Eu disse a ele incrédula de minha certeza, às vezes o coração desembesta, gira afoito e laça numa súplica, qualquer desejo esquecido. Um dia nos veremos, lhe prometo. Fortemente contra o peito a cruz em que me ajoelho e verto sangue em orações dissonantes. Cristianismo entrevado nos poros da pele, tradição de família. Desejo de pai, anjo que ergue as asas sobre o sol de verão.E ele disse que sentia minha falta, disse que sente minha falta e que pensava em mim. Um dia nos veremos, repeti, repeti saudosa com teu olhar ainda pairando sob minha alma descoberta, pairando num ínfimo momento de verdade. Tua essência caindo leve, gota a gota, despencando por penhascos fúnebres das minhas dores, desvendando as cores reprimidas pela rotina de chorar. A cruz que levo nas costas, que atravesso ruas movimentadas, que desafio o diabo, que me protejo.Um dia nos veremos. Tua amabilidade duvidosa, minha paz inquieta, saudade. Teço tua vida conforme me representa o brilho embriagador de teus olhos, de noites de inverno com café, de filmes sutis de dias sem nada dizer.E tuas mãos leves, como que se colhessem flores, tuas mãos leves e sadias. Crias-te em mim a sensação de ser possível, de que não nos encontramos antes porque era preciso aumentar a sede de viver, a sede do querer. Fizeste-me crer que essas mesmas mãos criariam junto com as minhas, os mais belos caminhos. E ainda assim eu disse que um dia nos veríamos.Há coisas que não se repreendem. Como daquela vez em que subiste até a torre da estação telefônica e em plenos pulmões gritou seu desprezo pelo ridículo ego que traz dentro de si. Tive medo de que cometesse a obscuridade do desconhecido, mas era apenas fogo de libertação que regurgitava de si.Tua duvidosa amabilidade, a certeza de que um dia, quem sabe antes do previsto possamos um dia nos reencontrar.Escrevi na porta poemas loucos de amor e paixões egoístas e todos eles encontravam final na vogal de seu nome, todos eles incentivavam inconseqüências malditas que o poder da cruz há de partir.Jazz invadindo a alma, uma voz rouca na leveza interminável da angustia, um dia nos veremos. Prometo. Como a prata dos talheres que jamais tive, como os versos que me dedicaste, como a fúria de um deus traído, imaculado, prometo, como o amor de antigos profetas ao destino.Luz baixa sob os móveis do quarto, minha exata solidão, luz baixa sob minhas perspectivas frustradas, lágrima inaudita sob indizível discrepância: um dia nos veremos.

Ele é Carioca

Libertina. O faria transgredir muitas regras morais. Talvez ele não estivesse jamais traindo seus ideais, apenas seria capaz de cometer atrocidades se isso deixasse meu ego inflamado, se servisse como prova da imortalidade de seu amor por mim. Escreveria cartas de amor, desenharia nas nuvens, cortaria o fel da realidade com a doçura de sua língua, inundaria o deserto, estenderia os segundos, roubaria de deus seu veneno mortal, esculpiria o abstrato.
No delírio da minha ambição, saciaria minha falta de grandes conquistas, render-me-ia conquistas, incalculáveis vitórias, dominaria nações, desestabilizaria o convencional, criaria religiões.
Ah! Libertina, de ópios e guerras e sangue nobre. Ah! Libertina, de possessividades e contradições. Liberta do rigor dos sinais, liberta da escravidão que sugeres tu as palavras. Desprende a alma da carne, domina o espelho cruel que te reflete, morde a mediocridade da rotina. Tua voz clama por um amor de verdade, por laços que transcendem, por ruas desertas.
Ele tem olhos de fogo, Copacabana me ama, Noel Rosa me ama, Tom Jobim me ama. Ele tem olhos de mar, profundidade verde onde naufrago meu barco de quimeras tristes, meus monstros guardadores de tesouros.
Ele me ama, Cristo redentor em chamas.



*Seu sorriso é um paraíso.
;)

(Cortina de Ilusões..)