domingo, 8 de março de 2009

Água Pura

Trucidam-se almas
E mantém-se o corpo intacto,
Livres de qualquer aspecto pútrido.
Dentro do invisível,
Do cárcere da íris.
Dores insuportáveis
Trafegam sem destino,
Em rios de lágrimas voláteis,
Em peças de teatro,
Em cores abstratas.
Buscam refúgio
Em outro mundo.
Rasgam-se memórias
E permanece intacto
O orgulho de existir.
Repreendem-se desejos
E sustenta-se sadia
A razão.
Cultivam-se sonhos impossíveis
E chama-se a frustração de azar.
Resgata-se a consciência
E provoca-se o acaso
Com palavras de esperança,
Ladainhas conformistas
De merecimento.
Enterram-se os mortos
E calam-se as perguntas.
Busca-se refúgio
Em outro mundo,
Livres de qualquer aspecto pútrido.

sábado, 7 de março de 2009

Hope

Às vezes era como um sopro de vida, uma agitação nos terrenos viscosos do peito, um bicho afoito querendo fugir, um desejo imenso de não ter reparação.
E então tudo ficava mais bonito, o olho rasgava imagens tristes e explorava cores novas. Era como um sopro de vida, uma luz que rebentava da escuridão, a alma leve e tudo mais ia pedindo passagem, andava com um porte mais elegante, com as rédeas da mágoa e desilusões soltas.
E eu fechava os olhos sem apreensão nenhuma, consciente da estrada inteira que havia acabado de criar, ia andar, e se caso o rumo deixasse de me agradar, fácil, era só mudar, transformar.
Às vezes era como um sopro de vida, agitação rasteira nos terrenos viscosos do peito.

Para Grandes Olhos Negros Conhecidos

Tive a impressão de que já o conhecia, aqueles grandes olhos negros não me eram estranhos. Talvez o tivesse visto em alguma festa, num bar, quem sabe num sonho ou talvez em lugar algum. Talvez jamais o tenha visto, eram olhos comuns, um homem comum.
Ele me olhou como se também já tivesse me visto, em alguma festa, num bar, quem sabe num sonho ou talvez em lugar algum. É provável também que nunca tenha me visto, tenho olhos comuns, uma mulher comum.
Talvez nos conhecêssemos de vidas passadas, mas não sei se acredito em vidas passadas.
Sei que atravessava o corredor e ele estava parado, por algum motivo qualquer o vi, não estava no meu campo de visão. O vi e foi como se já o tivesse visto.
Foi exatamente isso, o vi e foi como se já o tivesse visto e, no entanto talvez nunca mais o veja.
Eram grandes olhos negros dramáticos, cúmplices, todavia, de um grande segredo, algo alarmante, terrível, negro como seus olhos: conhecíamos-nos.
Quem sabe de alguma festa, bar, sonho, lugar algum, vidas passadas. Não importa, nos reconhecemos. Pessoas comuns.