quinta-feira, 30 de julho de 2009

Excesso

Os olhos ficando cada vez mais cerrados, o pensamento tão distante, tão distante... A cabeça apoiada no braço, a cabeça caindo involuntariamente num cochilo repentino, e também o susto que a faz acordar com a cabeça caindo. Sono, muito sono. O dia abafado, o suor na testa, a cabeça apoiada no braço. A cabeça caindo involuntariamente, o susto... Os olhos semi-cerrados novamente, sono. Muito sono.

O Suplício

O melhor era ter certeza de que não havia mais ninguém na repartição, ter certeza de que era o único que fazia hora-extra, analisando pilhas e pilhas de papéis que na verdade não serviam pra nada. Mas sempre fora o único durante anos a ficar ali sozinho até as 2 da madrugada com aqueles malditos papéis que na verdade não serviam pra nada e o tic-tac repulsivo do relógio azul que puseram na parede a sua frente.
Como se analisar papéis inúteis já não fosse o suficiente, instalaram aquele escravizador de humanos bem a sua frente, quase como uma provocação.
Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Ressoando profundo em sua alma.

Levanta João, quebra esse relógio, não tem ninguém na repartição.

Sorte

Antes da última tragada, pensei por instante, numa fração de tempo quase inexistente,
que essa merda estava devorando uma parte da minha vida.
E ri. Um desses risos que ficam sem jeito no canto da boca.
Quê vida?

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Do Pecado

Vou roubar-te a paz hoje a noite,
Sentar no teu colo e dizer
pausadamente,
cuida-de-mim.

Você vai me olhar assim,
desnorteado.
Não se brinca com tamanho
desejo irrefreável.

Mas eu sou sim, sua maldade.
Cuida-de-mim.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

O Dom

Se eu tivesse o dom eu já o teria perdido,
Escrevo por teimosia.
Carne que se expande e se materializa
Vocalicamente através de letras.

Nem sempre escrevo a verdade,
É a parte que se perde
Quando chega a outros ouvidos
Minha voz silenciosa.

Se eu tivesse o dom o devolveria,
Eu prefiro a rua e os marginais
A força de matar sozinho
A escuridão dos dias.

Nem sempre tenho coragem,
Ando por teimosia
Sangue que corre ao revés dos dias
Palavra pugilista que me arrebate e me tranca a memória.