sexta-feira, 9 de julho de 2010

prazer
da pura percepção
os sentidos
sejam a crítica
da razão

*Paulo Leminski

Algodão

Queria
ser
o algodão,

a cumulus
que deságua
no verão.

Tímida
e clara,

gota a gota
em direção
ao chão.

Se ela vier por aqui

Se ela vier por aqui,
Diga-lhe que estou bem.
Apesar de nessa cidade vazia
Nao conhecer quase ninguem.

Apesar das noites interminaveis,
Das sombras nas paredes sujas.
Diga-lhe que estou bem
Mesmo camuflado nas ruas.

Se ela vier por aqui,
Diga-lhe que estou sorrindo.
Apesar dos olhos molhados
afirmarem que estou mentindo.

Apesar de tantas noites vazias,
Perto de tantos estranhos.
Diga-lhe que estou bem
Mesmo sem seus olhos castanhos.

* Poema do Luiz.
Espero que você passe por aqui ulgum dia. =)

A vida de Maria

I

Todo dia Maria sentava-se pontualmente às 21h e 55min no sofá da sala, fazia parte do ritual: cinco minutos de espera. E Aguardava auspiciosamente a chegada das 22h.
Parecia banal aos olhos de quem não carregava no peito uma paixão dilacerante pelo jovem e garboso apresentador do noticiário, “Os Fatos do Dia”.
Gostava de vê-lo falar, prestava atenção na sua gesticulação, no seu olhar profundo. No jeito cuidadoso com que sempre arrumava seu cabelo, era um homem inteligente, de vocabulário audacioso. Que sempre se despedia do programa com o bordão “E esses foram os fatos do dia, especialmente para você”. Seguido por uma leve piscada do olho esquerdo, e um singelo sorriso. Que realmente parecia ser dedicado especialmente a ela, era o seu momento de glória.
Mas hoje foi diferente. Algo inesperado aconteceu, o apresentador nunca lhe parecera tão frio e distante. E ao termino do programa o homem garboso, Ricardo Montevidéu, despediu-se com um inesperado e solene “Boa Noite”. Sem nem ao menos um sorriso.
Talvez estivesse triste ou cansado, mas onde estava seu profissionalismo? Era inaceitável que deixasse sua vida pessoal atrapalhar nas transmissões do noticiário. Tão pouco era aceitável que mudasse seu comportamento assim, de uma forma tão brusca. Jamais se sentira tão ofendida.
Desligou a TV num ímpeto raivoso, decidida: nunca mais assistiria “Os Fatos do Dia”.

Teu cheiro

teu cheiro na minha pele,
no meu travesseiro,
no meu ar.

teu cheiro,
ainda que eu fique
sem respirar,

brota do coração,
infesta os pulmões
e o ato
de imaginar.